Para comer nas entrelinhas

(I’ve got a feeling I’m falling/Fats Waller)

uma ilha/viviane zandonadi

uma ilha

Em um daqueles dias “mágicos”, perto do fim, meu pé errou de pedal e atropelei a catraca da garagem de um shopping. Não parei. Segui. Fui. Até que havia motivos para passar por cima, mas a rigor foi sem querer e só estragou o carro. Nas fugas do cinema elas se arrebentam irremediavelmente. Pois na vida real são reforçadíssimas e o jingle jingle ambiente não é interrompido depois do, digamos, acidente. O velho crescido em seu uniforme, em tom raivoso, sintetizou os xingamentos na pergunta do leitor: “Por que você fez isso?” Não sei.

Corta para sequência de bonança trazida pelas doces noites de dezembro pré-inferno de ano novo na praia, quando o pessoal ainda não foi. Ignorei o calor e neutralizei a fúria ocasional em uma faixa de areia fofa protegida ao sul por pedra e mato e morro. Ao norte, também. Ainda que no continente, dava para sentir a respiração da ilha à esquerda, e, quando na areia, contemplar seu montanhoso perfil entre névoa. Nelas ou perto, sempre acho essas terras descoladas fascinantes, mais vivas do que todas. O mundo não pode ser uma ilha, mas precisa delas. Sem catracas.

Nas pequenas férias de um ano importante e difícil, tomei café da manhã e almocei e almocei e jantei ao mesmo tempo. São os dias em que as coisas se confundem de propósito. Fomos recebidos por amigos queridos em sua varanda, onde havia também distrativos e quase mastigáveis espumantes e livros e histórias pra contar. Passávamos a maior parte do tempo ali. Certa noite, depois de rever Simplesmente Amor (o melhor roteiro de Natal de todos os tempos do mundo), estávamos famintos outra vez.

Enquanto secávamos outra garrafa de vida borbulhante e gelada lanchamos sanduíche de pão de forma, fatias superfinas de presunto, queijo esburacado e mostarda de Dijon com mel. Fez lembrar os dias à beira-mar quando era criança e de Dijon não havia nada, mas antes de entrar no carro eu ganhava banho de água doce saída de um galão azul. Meus pais sempre nos levaram para acampar no mato ou na areia e invariavelmente havia esse tipo de comida de parque do Zé Colméia ou do Scooby Doo. Continuei acampando depois de crescida, e até comprei meu próprio iglu. Na aldeia, sobre os fogareiros de poucas bocas, fervíamos a água do macarrão em panela de alumínio barato, aquecíamos o molho de tomate e fritávamos linguiça fininha em sua própria gordura que grudava na panela, bem salgadinha. O perfume dessa comida maravilhosa sinto agora, escrevendo, e tenho medo do que será de mim ao terminar.

Nunca esquecia de rechear a mochila com uma boa quantidade de meias. Ainda que as roupas necessárias nesse tipo de instalação fossem sempre mínimas, proteger os pés depois do banho era e é um luxo emocional. Assim, estranha e com sandália de dedo, fui bem feliz em tantos verões que já nem sei. Agora, porque fiquei besta ao envelhecer e, acho, só as meias já não me bastam, preciso de frio e não suporto o mormaço. Quem sabe uma cabana na Finlândia, sob o sol da meia-noite? Oremos.

De volta à varanda, contamos dos filmes que amamos, dos lugares que desejamos e das coisas que nos espantam. Essas, da vida.

A menina, por sua vez, com muita bravura mastigava frutas secas e castanhas e se retirava do mundo contando aos bonecos histórias fantásticas que enriquecem nosso repertório de momentos extraordinários. Muitas são as adaptações da vida atribulada das princesas da Disney misturadas aos contos absurdos, alguns bem horrorosos e de botar medo que às vezes bem ou mal editamos ao ler antes de dormir.

Nesta época o tempo envelhece (mais) depressa e as mordidas de inseto ainda nem secaram e já dividem o adjetivo implacável com as contas do novo ano fiscal particular, que não tira folga. Uma merda. Acordo, pois, sobressaltada em dois de janeiro de agora. Desde aquele pão com queijo e presunto e mostarda e mel, sei que fiz um último ragu de músculo e bacon, um primeiro risoto e, no caminho, fileiras de blinis com ovas de peixe, da tainha espanhola que posso pagar. Cozinhei o feijão, acertei o arroz e assei sardinhas. Muito me contenta que todas as comidas da intersecção tenham sido até agora aprovadas pela menina, meu público maior.

Durante a procrastinação, o bloqueio criativo de um trabalho e a dispersão do que há por ler, me arranjo uma uma lista de desejos.

1. que os restaurantes deletem de seus cardápios o pratinho sem vergonha e sem imaginação “para criança”. Chega de hambúrguer tostado com batata frita ruim: paladar infantil é uma grande bobagem. Não ofendam as crianças

2. que os pais encorajem seus filhos a comer a mesma comida boa que escolhem para si e a escapar e a fazer travessuras em ocasiões especiais. Assim se constróem afinidades e diferenças gastronômicas que dão alguma graça aos dias

3. que as pessoas cometam pequenos suicídios  juntas. Acho que arranjos de gordura e sabor fortalecem o caráter. Posso estar errada, mas ao menos dão um prazer enorme. Vejam um programa em não sei qual canal sobre um sujeito que sai pelo mundo atrás de bacon. Bacon. É isso

4. precisamos também procurar pelo bom tomate. No doído filme A Árvore dos Tamancos (1978), o nonno Anselmo cultiva os seus clandestinamente, para ganhar uns trocados na dura vida das famílias escravas da casa grande, sempre por um triz, naquele norte da Itália do início do século XX. Planta pouco, em segredo e com amor. São os melhores, segundo os clientes. Precisamos saber onde há mais Anselmos desafiando o lugar-comum

5. que parem de acelerar nosso calendário biológico e nos prejudicar com agrotóxico

6. que parem de fazer propaganda de comida ruim em canal infantil de qualquer mídia

7. que nos poupem de gourmetizar o café coado (estão perto, eles) e, a propósito, que a gente se deslumbre menos e coma mais

8. que a gente aprenda mais sobre a comida. É o único jeito de não ser totalmente enganado

9. que as pessoas tenham mais educação e prestem atenção umas nas outras e tentem ouvir e ler o que não foi dito. Come-se nas entrelinhas.

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