Um pastel de gentileza, um caldo de dignidade

Fiquei toda prosa quando a jornalista Bianca Chaer me chamou para escrever uma crônica em seu tcc-livro-guia-de-comida-de-rua. A Bia é uma pessoa viva, querida, cheia de vontade. Ela também é rápida. Fala pelos cotovelos e está acostumada a me resgatar no meio da conversa. Já sabe que me distraio contemplando os passarinhos que ela mesma trouxe para o assunto que não era bem aquele. Se deixar, nunca mais chegamos ao fim.

Foi um presente para mim escrever para ela.

Depois travei e não saiu uma linha. Até que, prestes a ser demitida de meu cargo de convidada, vasculhei sob pressão algumas ideias, tomei café e comi pastel da manhã comprado na feira da rua de casa por alguém que amo. Esse coquetel ajudou a entregar o pedido. A propósito: o trabalho da Bia é como ela. Espero, sinceramente, vê-lo em breve editado para todo mundo.

***

Um pastel de gentileza, um caldo de dignidade

pastel de gentileza/viviane zandonadi

pastel de gentileza

O silêncio lá fora é grande. Maior do que o das outras manhãzinhas. Acorda-se assim no primeiro domingo do horário de verão. Prefiro quando acaba, porque aproxima o outono e devolve a hora roubada. Porém, como não tem jeito, aqui estamos outra vez. Ele, o horário, em sua temporada anual na lista de assuntos de elevador. Eu, a rabugenta do calor.

Em fingida animação, pulo da cama e despenco sete andares. Sair. Ir para a rua. Padaria. Trazer comida para a caverna.

Ufa, o ar ainda está frio – monólogo furado. É que são sete, mas na verdade são oito. Ou melhor, são oito, mas são sete. Que diferença faz uma hora, hein? Caminhar agita o sangue que trafega atrasado, no horário antigo. Os pés começam a coçar. Minhas pernas, minha barriga, meu cabelo arrepiado. Ai, minha alma. Tudo coça. Prestes a ter um ataque de nervos, sinto que não há mais esperança no mundo, só aquelas, as grandes, fechadas no livro que troquei pelo passeio.
Se parar de coçar, amanhã começo a fazer ginástica, prometo. E faço figa.

Atinjo aquele ponto em que o Alto da Lapa se materializa. Parada não coça. Aproveito um sinal vermelho e fecho os olhos debaixo do sol da manhã. Abriu. Andar. Coçar. É só mais uma faixa, não seja frouxa.

Um bom dia e um sorriso. “Pode falar”, larga, na minha cara, a rapariga atrás do balcão. Toda semana a criatura ignora deliberadamente meu cumprimento. Respiro fundo e dou-lhe outra chance na vida, uma chance agora exclamada: “Bom dia!”. Ela, de novo: “pode falar”.

O desperdício é relativo. Ela acha que não precisa fingir que é educada para mais uma mulher recém-amanhecida. Essa mulher, no caso, eu, aparece logo cedo vestindo esse sorriso bobo e essas roupas largas na tentativa de camuflar o hambúrguer secreto que comeu ontem, no número 620 da Rua Cunha Cago – o lugar simula um trailer, ou caminhãozinho de comida. Food truck. Lanche muito bom, por sinal: carne mais queijo gruyère, compota de cebola-roxa e relish de pepino no pão com gergelim preto.

Enfim, a moça desconhece minhas batalhas (e eu as dela). Ainda assim, acho que algo se perde na descortesia. O pão francês, porém, não justifica o desgaste. Mas a chipa… esta sim é boa. Vamos em frente. Quero meia dúzia (e semana que vem tem mais).

Na volta, meu corpo não coça. Está tonificado pelo esforço social de arrancar alguma gentileza no balcão. Esquecido o desconforto, talvez estique a caminhada até a igreja, porque tenho muita fé na pipoca com provolone. Aprendi cedo que lá fora há algo muito gostoso a esperar crianças que ficam quietinhas durante o sermão – e adultos também. Sendo assim, comportem-se.

Decido recalcular a rota e pegar um pastel da manhã na feira da rua debaixo. Seguro firme a sacola da padaria, como se tranquilizasse a chipa. Não te preocupa, querida, ainda te quero, mas o chamado de um pastel da manhã não se despreza.

Enquanto espero o meu, de queijo, vejo que as mesas de plástico estão forradas com jornal. O jornal é a nova toalha. Gostei. Em meio a distrativas notícias de outros meses, leio uma entrevista em que uma professora universitária diz algo como “no restaurante chique compramos não só comida, mas dignidade e respeito” e que todo mundo deveria ter direito a isso. Oquei.

Sofro de uma ligeira labirintite e ergo a cabeça para ajustar o foco.
Ao meu redor, concorridos bancos de plástico. Sobre as mesas, cotovelos amparam mãos, que amparam pastéis e copos (de plástico) onde é derramado o caldo de cana extraído na hora. Abelhas, pessoas e alguns bichos. As moças da barraca mergulhadas em um sem fim de bom dia freguês, bom dia freguesa, dois de queijo, três de pizza, pode sentar que já levo na mesa, seu troco, obrigada.

Avós e netos em gostoso delito, pura cumplicidade. O pai e o filho em merecido lanche depois das compras. Ciclistas de domingo. Namorados. Amigos curando a ressaca. A dona de casa seca o suor da testa do marido, que descansa o carrinho à sombra, enquanto tempera o de carne com vinagrete. As comadres reclamam do preço da banana e pedem um de palmito para dividir a bronca.

Respeito é coisa que realmente não se compra na gôndola do mercado nem no balcão da padaria. E francamente aquela manhã de domingo tinha uma pegada mais autêntica do que muito artigo do gênero vendido, digamos assim, na disputada mesa do restaurante chique e mimoso.

Aprecio restaurante confortável, não entenda mal, leitor. Mas às vezes a gente só quer uma mordida memorável. E descomplicar. Menos análise e mais comida de verdade, por favor.

Uma dentada na parte mais gordinha do meu quitute me anima a rabiscar uma lista particular de delícias de rua que ajudaram a forjar meu caráter guloso – muito antes de ter alguma condição de comprar respeito entre aspas em salão refinado.
O churro que me atormentava o verão de menina, o milho cozido com manteiga na fila da balsa, a pipoca da missa, a massa que parecia de bolinho de chuva, açucarada depois de sair do tacho na festa do interior. A cocada branca à beira da estrada.

Minha caneta enrosca quando avisto uma família. À frente dos pais, duas menininhas de olhar azul e cabelo confuso seguram pastéis maiores do que elas. Desocupo rapidamente a mesa, contrabandeamos rápidas gentilezas. A funcionária da barraca troca a toalha, quero dizer, o jornal. Eles se acomodam. Subo a ladeira agarrada com minha querida chipa. Que calor. Já passa das nove. Não, das dez. Ah, esse horário de verão. De novo.

Um pensamento sobre “Um pastel de gentileza, um caldo de dignidade

  1. Pingback: Rabugenta do calor* | Maisa Infante

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