Piquenique em céu de brigadeiro

Acho um horror criança que chuta o banco da frente. Em sua primeira viagem de avião, a minha ficou tão quietinha que ao fim foi aplaudida (?) pelos demais passageiros, os fisicamente adultos. A mãe também merece os parabéns, disseram alguns dos sobreviventes – os mesmos que levantaram antes do veículo estacionar completamente, só para ficar mais tempo com a bunda na cara de uns e encarando outros e chegar antes na espera da esteira de bagagens. Aposto todos os check-ins feitos e por vir que a minha mala, aquela despachada no último minuto do tempo regulamentar, será jogada primeiro. Nem sempre ganho, mas quando sim saio internamente triunfante arrastando sobre rodinhas a vitória em uma batalha social contra a chateação humana.

Se eu mandasse no mundo, aliás, o desembarque seria feito por ordem de fileira. Quem está mais perto da porta começa, é seguido pelos demais e não há o que discutir. Quem levanta antes da vez vai para o fim da fila e fica quieto. Se insiste, volta três casas. O mesmo vale para o sujeito que indelicadamente reclinou a poltrona o tempo todo durante o voo obrigando os de nariz muito ou pouco avantajados a ficar de perfil até durante a refeição. Nesse caso, porém, me ocorre agora que pernas inquietas de criança fofinha dão o tratamento merecido.

Mas não mando.

Voltemos ao bebê que estava então com cinco meses (…). Ora, por favor, é uma mama-e-dorme, digo entre dentes de sorriso sem graça e pretensamente orgulhoso e agradecido. Deixem de ser frouxos. Um pacotinho perfumado não poderia derrubar a aeronave nem se fizesse cocô. Só mama no peito. Tudo que sai dali tem cheiro bom. Ou quase.

Dois anos depois, voamos para Porto Alegre. Ela come (comida), é naturalmente ameaçadora e, claro, como esqueci seu bloco de escrever e o estojo de giz, encerra meus livros na bolsa por toda a viagem – mesmo em trechos curtos, sempre levo mais de um, para dar munição à dúvida. Desenhará verbalmente o tempo inteiro, fará perguntas sem fim e provocará os vizinhos. Que gracinha. Que charmosa. Que perigo.

Ir “na Porto Alegre”, onde vivem as primas, e “comer” chiclete são objetivos muito claros para a menina. Quando alguém repara como cresceu, logo recebo um olhar de profunda esperança: “Já posso comer chiclete, mãe?”. Ainda não, ganhe mais um punhado de centímetros. “Tá bom.”

Embarcadas, sem a goma que nunca chega por mais que as roupas fiquem misteriosamente curtas, ela me deixa pretérita ao dar os tais pontapés irritantes na poltrona da frente. Para. Desculpa? E surpreende todo mundo com um anúncio sensacional “a gente vai decolar!!”

Escapa do cinto, fica em pé no banco, teima que as nuvens são doces espumas no mar azul, canta a música da pequena sereia (“só sei dizeeeer que a vocêêê vou pertenceeeeeer”). Então me pergunta se o moço ao lado – na verdade é uma moça de cabelos bastante curtos e óculos escuros, que de repente para de sorrir – é quem vai trazer o sanduíche de queijo (?) branco e peito de peru (!) prometido pelo comandante no anúncio do serviço de bordo.

Na poltrona anterior, o homem mastiga tranquilamente a merenda ruim até congelar diante dos enormes olhos de Catarina. É o preço pago por ser o primeiro a receber a comida entre aspas, meu caro, e por ter aceitado sem questionar com o mouse a 18C, onde foi jogado aleatoriamente pelo sistema do site, inventado para brincar com nosso destino. Uma decisão para a vida aquele botão confirmar.

“Cadê meu pão?”. Já percebi que o carrinho nos visitará por último. Se acabar o sanduíche – e já vi isso acontecer, porque tem gente que re-pe-te –, ela talvez morda o vizinho.

O que me aflige mais? O peito de peru. Lógico.

Deveriam dar bons descontos para quem (lembra de) levar a própria comida e recusa a mentira embalada no papel. Da próxima vez vou desembrulhar um piquenique em céu de brigadeiro. Com vinho, azeite, presunto cru italiano, pão fresco e queijo de origem. Todos portáteis, mas nunca simulacros. Nunca sintéticos.

Escaparíamos das porcarias, também, se alguém montasse um quiosque de comida de verdade na sala de embarque. Caixinhas cheias de coisas boas que, esvaziadas, seriam entregues no destino para reaproveitar. Nas marmitas inteligentes não caberia salgado requentado nem pão de queijo vagabundo nem embutido de gordura e cartilagem de frango de granja.

Mas sou fraca. Esqueci a lancheira e sucumbi até à bala “tipo” toffee. A menina pelo jeito puxou a mim: basta atar os cintos e vem aquela fome típica de viagem, ainda que nos voos mais estreitos. Da próxima vez providencio um farnel distrativo e gostoso. Como diz Catarina, a rainha do drama, isso não é justo. Mas é vida, filha. Contornemos.

(Tudo oquei para esses planos em voos nacionais. Nos internacionais, salvo engano, pode no máximo comprar alguma coisa na sala de embarque: é aí que você, meu caro leitor pensando em se reinventar, talvez fique rico. Venda para quem vai viajar suas marmitinhas charmosas com lanches suculentos e ingredientes bons. A julgar pela linha do tempo de quase todo mundo, é isso basicamente que as pessoas fazem: comem e viajam, uns um pouco mais outros um tanto menos. Esses lanches honestos e reais dariam boas refeições também diante da novela, da nova temporada do downton abbey  ou no braço do sofá, virando umas páginas de livro. Ou espiando a vida alheia no Facebook. Mas daí é outra coisa).

Tripulação, pouso autorizado. Acabou.

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