Adivinha o que tem para o jantar

Uma noite sonhei que meu barco estava afundando. Acordei antes de afogar. Na outra, o prédio em que vivia (no sonho) era atingido por um avião. Eu o vi se aproximar na altura perigosa, e comentei com minha irmã. Vai bater. Bateu. Senti o tranco, mas não caí. Ouvi os gritos – lembro-me deles com estranha nitidez –, e despertei. Contei as não-baixas com aquele estranhamento de ‘foi apenas um sonho muito de verdade’. Esperei o telefone tocar, vai que sou vidente. Nada.

Seis da manhã. Posso comer uma chipa, em algum estágio entre pão de queijo e biscoito de polvilho. Não. Bolachinha de maisena com requeijão. Fiz um pouco de ginástica e li Caninos brancos. A casa ainda dormia. Lanchei all by myself e li um dos contos de Todo homem é uma raça.

No banho, decidi que naquele dia finalmente passaria a ignorar as desimportâncias. ‘Ignorar as desimportâncias a partir de hoje’ é a promessa de começar firme uma dieta moral. Por fim, fui me montar. À beira dos quarenta, a gente não sai, assim, simplesmente. Só quando finge estar pronta.

Dei-me algum atraso. A menina acordou e me cobriu com aquele olhar de abismo da manhã. Instante de felicidade profunda que preenche os buracos da vida irregular, coisa que bem descreveu um filósofo predileto, bob harris.

Aproveitei para fazer cafuné e drama até ela pedir para eu parar, peloamordedeus. Como vai ser daqui a dez anos. “Você não me pega…”, canta meu cartoon particular.

Saio com destino ao emprego temporário, me animo aos poucos. No elevador, ainda me espanto com gente animada logo cedo. É indelicado ser tão entusiasmado no elevador, a qualquer hora.

Na atmosfera de janelas fechadas, a ronda dos emails: a vida é uma montanha-russa meio besta. Funcionária-bailarina, no meio da tarde distraída procuro sinônimos à exaustão e me afobo num repente: e a janta? Comida pronta às sete, para a gente estar de banho tomado perto das nove, pijama-mãe e pijama-filha no sofá.

Ainda sem saber, pego a pequena na escola e em casa ela adverte os sete anões para não me atrapalhar, que estou “fazendo nossa comida”.

Risoto de camarão e ervilha.

risoto de camarão e ervilha

arroz grudado com camarão e ervilha

Para o camarão, grande e limpo e carnudo, meia cebola e dois dentes de alho enormes – nada me irrita mais do que alho miúdo (mentira, sou fácil de irritar, mas de fato não suporto tirar a pele de dentinhos).

Despejei vinho branco no refogado. Dois goles para mim, um para o camarão. Três para mim, um para o camarão. Quatro para mim. Separa o caldo bêbado. Transpira a outra metade de cebola, mais dois alhos. Ervilha crua. Não usei manteiga e meu caldo perfumado estava frio (dois sacrilégios. e daí?). Obedeci aos vinte minutos mexendo sem parar. Dez com cada braço para não morrer de dor.

É tempo suficiente para, diante do carnaroli a liberar cremosidade, me deprimir um pouco, me empolgar com uma possibilidade remota, arrepender-me do não dito, duvidar, ter medo e sentir o perfume da ervilha fresca, maravilhoso. Desenhei o oito na panela com a colher de bambu, fiz um caracol que imaginei multicolorido. Pensei uma frase que poderia prestar para algum texto (…).

Meti a colher para provar. Saboroso, mas se não fosse tão distraída teria ficado mais cremoso. Será que ela vai gostar? “É um tipo de arroz muito grudado”, avalia a criatura macia. “Er-vi-lha?! Mãe, POR QUE ervilha? (…). Agora temos de limpar direitinho esse camarão para comer tudo separado, tá bom?” Ahã. Comeu e saltou fora, abandonando-me com os pratos sujos. Tem de cuidar de seus bonecos. Enquanto preparo o banho, uma provocação: e amanhã, o que vamos jantar?

2 pensamentos sobre “Adivinha o que tem para o jantar

  1. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah, vivi.
    estou me derretendo com esse texto. agora sou metade pessoa, metade líquido não identificado, que se esparrama pelo chão do meu trabalho (alto lá, chefe!).
    tô com aquela sensação de aconchego de chuva com mantinha e meia felpuda.
    beijos!
    helo

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