Faz de conta (crônica de ausência)

Crônica de ausência. Crônica de caldinho de feijão futuro.

A panela de pressão está chiando e eu lembro que “olha o trem saindo da estação, quanta emoção, mas que emoção…” e que por várias vezes chega a cegonha, mas não há nada para a pobre senhora Jumbo. Depois, vem o Dumbo. Depois, ela é presa.

Esvazio a pressão da panela e me pergunto o que seria da menina se o piano caísse e, distraída a caminho, eu desaparecesse. A menina não fica desamparada no para sempre — é corajosa e criativa. Inventa alguma história até que lhe desabe o piano também. E deve haver algum Timóteo, como arranjou o Dumbo. E os corvos alucinados cantores de jazz.

Dumbo e Timóteo

Dumbo e Timóteo

Deixo um legado de sonhos amparados em frágil pilha de páginas lidas, não lidas e escritas ou por escrever. e em discos de filme. A menina vai lembrar, talvez, de uma instalação habitual: eu sentada feito gato no canto do sofá. taça de vinho, celular e computador. Todos os controles do mundo por perto. Os óculos tortos. Os livros espalhados. O tactactac.

E das coisas sempre ditas: cuidado; não faz isso; não pode,
Que amooor…, Que bagunça. Banho. Agora.
Conseguiu, filha, parabéns.
Pooode. Não pode.
Escute essa canção; não anda de tonquinha aqui dentro.
Você é tão fofinha… me dá um beijinho?
Meu preferido é o dumbo! Tá com fome? Hora de dormir.
Cuidado, vai sujar o vestido da branca de neve.
Volte aqui. Desce daí. O forno está quente e…
Eu avisei.
Agora é minha vez.
Me dá um pedaço?
Por que? Porque eu sou sua mãe.

‘eu te amo’
– quanto?
‘tudo’

vai lembrar de dizer “saco” e “droga” e solenemente mencionar: “nas adversidades, minha mãe dizia saco e droga, sabe?”

Vai lembrar dos beijos de creme dental. Dos olhos cheios de água. Dos olhos muito bravos. Da cara má.

Dos abismos.

Das músicas bobas que inventava quando estavam em trânsito. Das letras que cantava errado só para a menina corrigir. De procurar a lua.

Vai lembrar do perfume quando estava de saída. Vai lembrar do café na passagem; dos beijos de café, que detesta. Do alho refogando, do ragu de linguiça. Do macarrão, do leite condensado. Arroz fritando. Feijão na pressão, carne selando. Molho de tomate espirrando no fogão. Muito azeite. Bacon. Linguiça fresca ou defumada, no feijão. Quibe cru, peixe cru, churrasco sangrando. Cogumelos. Sopa de mandioquinha que esconde abóbora japonesa.

Brigadeiro no copinho e enrolado. Tapioca. Beijo de banana, de mamão, de abacate (detesta também). Das sopas e dos caldinhos que nos salvaram do tempo (o tempo que fugia pra cima da gente).

Do pão que sei comprar, mas não amassar. Do camarão espocando; a obsessiva preocupação: camarão tem de espocar.

Espera, mamãe está fazendo a comida. Mamãe está escrevendo. Trabalhando, lendo, almoçando, banhando, sendo e não-sendo. Espera.

Do sábado no restaurante. Dos bolos que fiz de menos. quero fazer mais.

Dos beijos de yakult. Da água com gás.

Talvez ela não lembre de nada, mas é preciso editar alguma coisa para que a pedreira não a desanime. Ela terá os livros, afinal. E os filmes. E poderá entrar neles quando quiser fugir de si e de mim, como já faz tão bem, aliás.

Faz de conta que tem jeito de lidar com a vida dura. E com as ausências.

Faz de conta que ela vai lembrar, assim, quando encher o prato de caldinho de feijão. quando fechar o zíper da mochila. quando tirar os sapatos antes de entrar. quando virar uma página.

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