Um bom motivo para sair de casa

Quando alcançaram a calçada, a tarde já tinha aquela formidável luz de outono que favorece pensamentos bons. A menina do colo queria ir para o chão. Era puxada em parte por seu desejo impaciente e também pelo peso daquela pancinha típica de quem está prestes a completar dois anos e ainda não se sabe bebê ou crescidinha.

Queria brincar outra vez com o cachorro da moça que tomava cerveja no bar da esquina, mais adiante.

Estavam excepcionalmente contentes.

Os três tinham acabado de sair de um restaurante gracioso, chamado Jiquitaia, onde o pai pediu costelinha de porco com batatas rústicas e geleia de tamarindo, a mãe escolheu arroz de pato com peito (de pato) mal passado e a filha quis um pouco de cada coisa, mas primeiro esvaziou um prato de penne com molho de limão siciliano. E pupunha.

Antes, foram escaladas duas entradas: peixe marinado e apimentado com batata-doce e carne seca com pirão de leite.

O que lhes dava aquele arzinho de brisa boa era o contentamento da barriga cheia e dos ouvidos bem tratados: uma porção de goiabada com creme de queijo depois, foram embora e deixaram para trás o João Gilberto — porque a trilha discreta e bem colocada também é, como diz a menina, “legal, acho, tá bom”.

peixe marinado e apimentado

peixe marinado e apimentado

O Jiquitaia fica no número 268 da Rua Antonio Carlos, em São Paulo. Travessa da Augusta. O cardápio, muito breve, faz sentido e não sequestra o tempo de quem vai comer. Não propõe coisas demais. Apresenta composições harmoniosas, sem charadas. O que interessa: comida boa e bem feita com ingredientes brasileiros, frescos, do dia. Clima tranquilo, salão bonito onde dá vontade de ficar, sem confusão na porta, porque nem manobrista caro ele tem (e manobrista caro por aqui é o que não falta, seja no bairro, seja no centro ou nos extremos).

Os pratos em média custam trinta e alguns reais e a fórmula completa com entrada+principal+sobremesa sai por 55 reais no jantar e no almoço de sábado. Na semana é um pouco mais barato.

A gente precisa de mais lugares que saibam agradar sem afetação, tensão ou pretensão e assim consigam, quem sabe, resgatar quem tem saído pouco, por nece$$idade ou de$encanto ou preferência.

Encontrar restaurantes inteligentes e encantadores, em sua discrição e competência, é muito difícil. Não é questão do que o dinheiro pode comprar e sim do luxo de não precisar gastar com o cansativo esquema pirotécnico — no geral alvo de muita louvação, mas que só faz barulho e não diz, de verdade, muita coisa.

Tem de saber usar, antes que predomine aquele clima de espera disputada que dá a maior preguiça.

Carente como está esta cidade, de boas soluções que não sejam esnobes, é torcer e contribuir para que o Jiquitaia fique assim para sempre e inspire outros a nos acenar com bons motivos para sair de casa.

peito de pato com arroz de pato

peito de pato com arroz de pato

costelinha de porco com batata rústica

costelinha de porco com batata rústica

creme de queijo e goiabada

creme de queijo e goiabada

menina escapando depois do almoço

menina escapando depois do almoço

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