Sopa de pão (ou assados e perdidos)

assados e perdidos

assados e perdidos

A sopa de pão é minha primeira lembrança de gosto. Podia ser pão perdido, esquecido ou novo.

Era doce e montada na caneca de alumínio meio amassada. A foto mal filtrada não lhe faz justiça, ainda mais embrulhada em cerâmica nova.

Rasgo o pão, derramo café e leite e polvilho açúcar.

Naquele tempo, quando encontrava no meio da sopa um miolo cheio de manteiga, sabia que havia sido premiada pela cumplicidade possível da avó.

Esse era o fim da tarde, depois da aula, até o pai chegar do escritório do seu Kiko. Vencido o trânsito de operários da fábrica, que travava a rua, alcançava a mesa posta que nunca falhava.

A vó Odete e o vô Sabino me esperavam no portão da casa erguida por ele, que era pedreiro, e na qual ela, agora viúva, vive suas saudades.

Aprendi a sopa com meu avô, que já não tinha os dentes. Era a solução predileta dele.

Às vezes, a avó me deixava ir pra sala. Sentada no sofá, ela colocava sobre as minhas pernas um prato grande colorex. No centro, havia um copo de café com leite bem docinho. Ao redor do copo, a ciranda de fatias de pão com manteiga. Não era a sopa, mas era um quase tão bom quanto. Assistiria ao Sítio e ficaria com medo do Minotauro. Tudo em seu lugar.

Quando terminasse, poderia ir lá fora jogar rouba-monte com o avô ou vê-lo jogar. Paciência. Na verdade, não era paciência. Depois da ave-maria, ele desligava o rádio e, sobre o banco de madeira pintado de cinza, improvisava o carteado. Distribuía duas mãos de cartas. Uma para si e outra para um amigo imaginário. Jogavam buraco. Torcia pelos dois. Mais tarde, na vida, faria a mesma coisa ao brincar sozinha em casa. Brincar de adivinhar o outro inventado.

Ainda faço a sopa em uma tentativa meio débil de resgatar o conforto. Aos seis anos de idade, já achava o mundo assombroso. Expectativa superada, a nova sopa não adianta muito, mas dissolve um pouco o desassossego.

Meu avô já não existe e minha avó não espera mais a gente no portão, porque a saúde se esvaziou.

Ela ainda conserva os olhos claros e o gosto por doce. Ainda lembra da vida (boa?) na roça, antes de tudo, e das conversas em italiano com a nona.

Ela ainda tem os mesmos dedos alongados, as unhas curtas e perfeitas, as mãos macias que modelavam coxinhas de galinha tão delicadas, e que arrumavam os pedaços de bolo de nada na louça clara. As mãos delgadas que alisavam as nossas mãos em carinho e sobre seu corpo ajeitavam os vestidos estampados. Mãos que dobravam e dobravam outra vez o guardanapo de papel até fazê-lo desaparecer, enquanto contavam uma história. As mãos finas que no calor das brigas podiam quebrar pratos e arrancar cabelos, se quisessem. Mãos que desafiaram a lógica do tanque e continuaram lisas. Mãos que nunca seguraram um passaporte nem uma passagem de avião, mas empurraram muita gente para fazer as malas. Mãos que não esperavam por tudo isso (e assim, desse jeito).

As mãos que faziam minha sopa de menina.

Corta para aquela manhã no Engenho Mocotó quando a professora Leila Algranti disse que a gente procura uma comida que nos lembre de outra. “Meu problema são as cocadas”, falou. “Vivo atrás de uma cocada que nunca encontro igual. Uma cocada que comi quando era garota, em uma barca para Paquetá. Uma cocada de fita. Posso provar centenas e nunca acho a minha”.

Meu palpite é que nunca vai achar. É como a sopa. Repito para ver se alcanço a fotografia antiga do avô e da avó com a vida fervendo em suas possibilidades. Não está lá.

6 pensamentos sobre “Sopa de pão (ou assados e perdidos)

  1. Vivi, seus artigos – é esse o nome? – sempre me emocionam… fico aqui tentando resgatar um fio da minha infância. Tempo que não volta só na lembrança, mas nos cheiros e nos sabores.
    Nao comia, ou melhor, não tomava pão com leite, mas como a história se repete, a mãe da minha querida sogra, passou para minha sogra que passou para meu filho. E hoje me vejo ao longo da minha maternidade, passando manteiga no pão e deixando cuidadosamente ao lado da caneca de leite quente e me delicio com o sorriso da criança e da caça às casquinhas de pão perdidas no mar. É nesse momento que o mundo simplesmente para. Um grande beijo. Adri

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  2. Pingback: Chuva de açúcar no pão com manteiga | sem reservas

  3. Pingback: A sopa de pão do vô Sabino e da vó Odete – Lembraria

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