Muito além do peso (na consciência)

“Yan é brincalhão, é bravo. Quando quer uma coisa, quer por que quer. Caso não dê logo, já viu. A gente bota uma alimentação pra ele e diz que é só isso. Ele não aceita. Ele quer, ele faz greve, ele grita, ele chora. Ele diz que não gosta mais de ninguém”, conta a mãe. Será que ela acredita?

Yan é uma criança linda. Yan é uma criança gorda. Só tem 4 anos e já está com problemas no coração e no pulmão. Yan sempre consegue o que quer. Para isso, se joga no chão na hora da merenda em casa e, se não for o que deseja, recusa comer o que tem. No caso, bolo com refrigerante (…). A batata frita ele ganha no grito.

Yan é brincalhão, é bravo, é lindo, é real, é mimado e é gordo.

O que será de Yan, se já está assim quando tudo mal começou? É o que a gente se pergunta ao encontrá-lo nas primeiras cenas do documentário Muito Além do Peso, da Maria Farinha Filmes, dirigido por Estela Renner. São primeiras cenas bem difíceis de ver, mas daí em diante é ainda mais difícil parar de assistir. Imperdível e importante.

A cada 5 crianças obesas, 4 serão adultos obesos. O que será de Yan?

Não é um filme novo. Estreou no ano passado, está na internet para ver e baixar — e torço para que seja visto e baixado e levado às escolas.

Costuma ser apresentado como um documentário sobre a obesidade infantil. É bem mais. Trata de escolhas, limites e, claro, da relação muitas vezes distorcida que temos com o consumo, a comida e a comida que não é comida. É também uma peça a respeito da responsabilidade de cada um. Do pai, da mãe, da escola, da indústria, do mercado, da propaganda.

Histórias tão assustadoras quanto comuns. Crianças que sabem o nome de todos os salgadinhos empacotados e são incapazes de reconhecer uma batata in natura. O horror do refrigerante na mamadeira de quem ainda não completou um ano fora da barriga da mãe.

***

As crianças não sabem de nada. Aprendem com a gente, com a exposição. Se as deixarmos fazer tudo o que pensam que é melhor, mais gostoso e legal, sem medida alguma, é óbvio que vão se matar. Ocorre que na maioria das vezes elas não estão nem aí, pois não pensam nada, não acham nada, não querem nada. Simplesmente absorvem. Se há pais que precisam que elas comam o biscoito recheado para encher barriga e porque é mais fácil, bem, elas vão comer. Mas podia ser bergamota.

Claro que se machucar é do jogo e forma, mas não dá para se omitir. É por isso que muita gente se emociona quando o Yan consegue o pacote de batata frita. Naquele contexto não tem mesmo a menor graça. É ruim para ele.

Tem jeito? Há todas essas questões da indústria, da propaganda, dos suspeitos de sempre. Mas acho que nada mais razoável do que olhar para dentro de casa. Tem de colar, fazer a base sólida (e de preferência não-terceirizada), a condução amorosa, espontânea. Proteger até onde der. Saber que às vezes vai dar certo e em outras errado. Dizer não, marcar território, desligar a tevê, aguentar o choro, perguntar menos e afirmar mais. Ver dvd junto umas mil e uma vezes. Ler histórias, ouvir boa música. Sentar para comer e conversar. Olhar para a comida, cheirar a comida e falar da comida.

Gostar.

Fácil falar, claro. Mas a gente tem filho, nossos e/ou dos outros, e sabe que eles são frágeis, inexperientes e dão passos tortos. Precisam que isso seja feito por eles e pronto.

E há formas diferentes de apresentar o gosto. Em todas, a gente leva pela mão. Mas, de novo, há pesos distintos nesse toque.

Dois episódios:

1. Um dia, na espera do pronto socorro infantil, uma mãe bem nervosa sentou a filha, chorosa e impaciente, no sofá ao meu lado. Ela socou a menina no sofá. Para fazê-la ficar quieta, a mãe, bem brava, ofereceu-lhe uma coxinha com cobertura de catchup. Era um produto conhecido, pois a garota logo baixou a guarda. “Agora você para com isso e come.” A menina obedeceu. Não devia ter mais de dois anos. Contente e inocente, ouviu ainda umas broncas entre uma mordida e outra, porque tentava se mexer ou descer do sofá.

2. Um dia, levei minha filha que tem quase dois anos pela primeira vez à feira do Pacaembu. Ela correu, brincou, espantou as pombas e a chuva. Escolheu uma melancia, adivinhou tomates, legumes e frutas e, pela primeira vez na vida, comeu pastel. Foi um sábado gostoso, nublado, sem muito calor e nenhuma culpa.

Não sei se a Catarina vai se transformar em comedora compulsiva de pastel. Se for, torço para que tenha um metabolismo bom. Também não sei se outra mãe viu a Cata na feira comigo e achou que como mãe eu deveria ser interditada. Mas sei que há boas e espontâneas formas de se relacionar com a comida sem culpa. Definitivamente, não é abafando a manha com a coxinha nem escondendo e fingindo que a fritura e o brigadeiro não existem, lançando sobre eles o véu do tabu-delícia-quero-provar.

Aqui em casa a gente tenta dar um jeito e, mesmo com um monte de trombadas, soluços e suspiros, faz o que acha certo meio que por instinto, por prazer e algo que pode ser chamado de fé.

A pequena, ao contrário de boa parte das crianças retratadas no documentário, sabe o nome das frutas e de muitos, muitos legumes, cereais e outros alimentos. Articulada, vê as bancas e descreve todos os produtos. Basta que a gente os mostre uma vez.

É bonito, mas não come muito, não. É empacada nas comidas prediletas, o que não chega a desesperar, mas minto se disser que não preocupa. Às vezes, dá um nó na minha cabeça e eu, claro, finjo que não dá, porque ser mãe é, entre outras, fingir estrategicamente que nem liga.

Um dia viro as páginas do caderno vermelho em que as professoras relatam o que ela comeu na escola. Recusou a banana e mandou ver quatro (QUA-TRO!) torradas com requeijão. No outro, come uma maçã, um biscoito com geleia sem açúcar e bebe um montão de água. Gosta de melancia, mas não suporta banana. Gosta de uva, mas fica pálida diante do mamão. No geral, não gosta de verduras cruas, exceto pela acelga que roubou do prato dos jabutis que moram na escola. Vai até o fim do mundo por um tomate.

Voilà: sou mãe de uma pessoa.

Em casa, agora, não tem biscoito recheado, comida de astronauta nem podritos. Quando como essas coisas (meu bombom predileto é um sonho cor de rosa), tento ser discreta. Me jogo nos bocados mais virulentos quando ela sai, dorme, pisca, olha pra lua. Sei lá.

Ela pede figo seco e damasco. Alívio. Ela pede um docinho, dia de festa. Vinho, cerveja, refrigerante? Não é pra você. Cada coisa em seu lugar, a vida é assim e blablabla. Mas sei que não vai durar pra sempre. Ela vai sair, vai encontrar os podritos, vai virar os olhos quando o glutamato monossódico bater. E acho que vai curtir. O jeito é controlar enquanto posso e fazer o que der para que ela aprenda a escolher.

E torcer para a vida ser generosa. Que a gente tenha tempo e discernimento. Que comer pastel de feira com amor não seja crime. Que a gente não ceda aos congelados de fábrica. Que a gente pense, investigue, questione, leia as letras miúdas, procure entender o que não foi dito e assim saiba o que está comendo. Afinal, se somos o que comemos e não sabemos o que comemos, uél, o que é que somos?

P.S
Veja o filme aqui

A propósito de carnes e cavalos, uma análise lúcida do episódio e outros quetais

Tchau.

20 pensamentos sobre “Muito além do peso (na consciência)

  1. ai, Vivi, alimentação infantil é um assunto que ficou tão complicado, né? me vira o estômago só de pensar essas cenas que vc descreve, que me faz lembrar de tantas outras. passo mal de verdade. fui mãe xiita, chorei sozinha antes de dormir quando por preguiça levei João a um habib’s num domingo à noite. essas coisas. em oito anos, só vi uma regra: tem dia que ele come bem. tem dia que ele mal come. mas a única parte boa disso é que a comida tem o espaço que merece ter na vida dele. ele come quando tem fome e para de comer quando está satisfeito. fala sim e fala não com a mesma frequência. a neura fica comigo, com aquela senhora em são caetano e outras que como ela orbitam o mundo dele e adoram ver crianças gordinhas.

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    • sou neurastênica e tento ser controladora, mas a gente come pastel com caldo de cana. se ela nao come fruta um dia, fico sem dormir. e de repente me dou conta que não faz mal, porque ela esta bem, feliz, brincando. e vai voltar. gosto do jeito do joao. ela tambem é assim, embora eu tenha desejado que fosse comilona. sabemos que estao certos. a verdade, analu, é que eles simplificam tudo. é o que nos salva.

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  2. Oi, Viviane,

    Cheguei aqui pelo link no texto da Eliane Brum.
    Muito bom o seu post, concordo com tudo. Gostei tanto desse documentário que assisti duas vezes (não tenho filhos, mas tenho sobrinhos, primos pequenos etc). E acho que o doc não é só para as crianças, mas para todos que buscam uma alimentação saudável (que é o meu caso, mas sem neuras).

    Gostei do blog e já o inscrevi no Google Reader. Mas só aparecem para mim os primeiros parágrafos. Poderia, por favor, liberar o feed para que eu consiga ler o blog por lá? Fica mais fácil e prático.

    Abraços.

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    • Oi, Jussara. Que bom que veio e que gostou. Você tem razão. O filme é para todo mundo refletir, não só a respeito das crianças — e do que as influencia –, mas também sobre o modo como a gente se relaciona com a comida e as escolhas que faz. Tenho pensado muito nisso também.
      Sobre o feed, vou lá nas configurações ver se descubro como faz.
      Muito obrigada pela visita e até a próxima :)

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  3. Muito bacana teu texto, estou baixando o documentário.
    Também tenho uma florzinha de 2 anos, compartilhamos das mesmas preocupaçoes, opniões e, certamente, do mesmo amor.
    Um feliz ‘achado’ seu blog!

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  4. Pingback: Açúcar, Sal e Gordura: as engrenagens da ‘junk food | Nutri Flower Power

  5. Meus parabéns e obrigado pois é muito bom encontrar um texto como o seu. Num mundo onde a gente parece se sentir sozinho, remando contra a maré, ou melhor, contra o tsunami da indústria, sendo tido como louco, radical e o escambau, vendo as pessoas se envenenando e envenenando seus filhos com junk food, que deveriam se chamar apenas junk porque de food não têm nada. Pessoas que se preocupam muito com a gasolina que colocam nos seus carros, mas pouco se importam com o que colocam no próprio organismo e nos dos seus filhos. O carro troca-se de tempos em tempos, se não troca o carro, trocam-se algumas peças, mas e o organismo? É único e insubstituível, mas eles parecem não se importar com nada disso. E o pior, são pessoas esclarecidas e com bom nível de educação, muitas inclusive profissionais da área de saúde. Já há alguns anos que do supermercado só trazemos produtos de limpeza e de higiene porque até o pão fazemos em casa. Ao ler os rótulos dos produtos industrializados, todos são proibidos: glutamato monossódico, lecitínia de soja, conservante não sei o quê, acidulante não sei o que lá, sabor artificial disto, sabor idêntico daquilo… Oras, se o sabor é idêntico, então por que não coloca o verdadeiro? Os grãos, queijos, frutas secas, compramos no Mercadão Municipal aqui da nossa cidade, Ribeirão Preto. Os grãos são deixados de molho para liberação do ácido fítico muitas horas antes do consumo. As verduras são entregues semanalmente em nossa porta por um sítio de orgânicos aqui da região, também buscamos frutas e legumes orgânicos, mas não é sempre que encontramos. Galinha, frango e ovos, só os comprovadamente caipiras, porque também há frango caipira de mentira. Soja, nem pensar. A pouca carne que comemos também tem que ter o selo de orgânica. Nossa única filha de sete anos come no mínimo quatro porções diárias de frutas, algumas colhidas da nossa pequena horta urbana, no nosso quintal. Nunca tomou refrigerante, quando vai às festinhas, apenas água. Não proibimos nada, tudo é liberado nas festinhas, mas ela consome pouco pois já vai alimentada. Ensinamos a ela que indo alimentada às festas, ela tem mais tempo pra brincar, além de não comer porcarias e ela adorou a idéia pois, por não ter irmãos, sempre quer brincar ao máximo com as crianças e já aprendeu muito sobre alimentação. Não toma leite, só o iogurte que fazemos em casa com leite de verdade. Nada de todinho, nem de nescauzinho e nem de mentirinhas de caixinha, é leite de verdade com cacau em pó adoçado com rapadura, nosso único adoçante. Ela tem um monte de coleguinhas com intolerância à lactose e que faltam às aulas por virose, rotavírus, resfriados, febres… Não me lembro da última vez que ela faltou, nosso remédio é alho, limão, própolis, sucupira, equinácia com coco, além da comida de verdade que é o melhor remédio, segundo Hipócrates. Difícil viver assim? De jeito nenhum, é fácil e praseiroso, não requer habilidade nenhuma, apenas vontade. Vontade de viver de forma saudável, como viveram nossas avós e as avós delas. Sempre bom encontrar gente como você, engajada na boa alimentação, responsável e preocupada com a saúde dos filhos. Parabéns!

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    • Toni, obrigada pela visita e sobretudo obrigada pela generosidade de compartilhar sua experiência. Tudo de bom para você e sua família.

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