Uma última palavra

Naquele dia, comprei com o dinheiro que não tinha dois bilhetes do macaco. Se tivesse sorte, teria também agora um bocado de sossego. Como não tenho nem sorte nem juízo, estou mais pobre do que antes e provavelmente vou empobrecendo mais a cada linha escrita.

Nem pergunte o número, não sei do assunto. Só estou contando para o leitor ver como pode ser perigoso beber um branco fresco e fácil na hora quente do almoço de verão abafado, mesas na calçada, comida boa e cidade falsamente vazia.

Assim, contente e de barriga cheia, a gente acha que o calor urbano está praticamente civilizado e compra um bilhete da federal. Não deu macaco, lógico. Macaco safado.

Tivesse eu resistido, com aquele dinheiro iria até a bombonière do cinema e pediria umas caixinhas de chocolate barato com recheio de “conhaque”. Cinema bom vende esse doce e tem bombonière. Nécessaire.

Nunca mais outra vez o bicho.

O almoço, porém, foi ótimo. A estratégia dos amigos – pedir porções – nos levou aos bons pastéis do mar, ao acarajé, ao vatapá, ao camarão, ao queijo de coalho com melaço de cana.
Feijão de corda.
Comemos brócolis.

Consulado da Bahia, na Rua dos Pinheiros. Não é muito caro, é gostosa a comida e o atendimento é cordial. Nada mal para uma cidade em que sobra pretensão.

Naquele dia, como de hábito, não bebi café depois do almoço. Só se fosse coado. Sou a louca do café coado.

Fugi de um bloquinho de Carnaval, porque sou a louca que não suporta Carnaval. Tomei chuva ligeiramente ácida e suja, suponho. Mas foi bem bom.

Reencontrei uma amiga de infância que não via há mais de vinte anos. Saltamos poças d’água juntas, olha que comentário ridículo. Mas foi exatamente isso o que aconteceu e foi surreal como um sonho esquisito.

Ensopados e divertidos, vimos A Caverna dos Sonhos Esquecidos.

O documentário filmado na caverna de Chauvet, no sul da França, é tão bom que faz a gente se sentir como se fosse uma daquelas bonecas russas cheias de camadas. Werner Herzog, além de nos obrigar a usar ridículos óculos 3D, mostra “com exclusividade” os desenhos lindos e sensíveis ao nosso bafo (de creme dental ou de chardonnay), mas que resistiram a 300 séculos de tempo passado nas paredes daquele lugar escondido perto de uma usina nuclear e onde por enquanto só dá para entrar ao ver o filme. Veja.

É formidável esse contato com a gente de há 30 000 anos, 20 000 anos e o trabalho daquelas pessoas que, hoje, investigam, inventam e contam essa história e tentam montar uma foto que explique tudo ou nada. Aliás, que contagem de tempo é essa? Foi bacana ser empurrada por amigos para dentro da caverna.

No outro dia fui ver Amor, que me persegue desde a primeira vez em que soube do Trintignant (un homme et une femme) no papel do velho e também depois de ler, há algumas semanas, o inspirado relato de uma colega sobre os minutos que antecederam a sessão em que ela viu o filme, longe daqui.

Sabia do que se tratava, que era dureza. Achava que ia morrer etc. Mas decidi que era minha vez de levar um soco no estômago. Vamos lá.

É difícil e importante, real e próximo. E são generosos em seu talento os velhos atores.

(Note que, quando Georges ajuda Anne a fazer alguma coisa, eles se abraçam, sempre, como dois namorados. É o que são. Os braços dele enlaçam a cintura. Os corpos ficam colados. As bocas próximas. Os braços dela lhe agarram o pescoço. Não me larga, ela confia.)

Assim como a caverna de Chauvet, o amor é frágil e brutal. Fica com a gente nos dias seguintes, ecoando o choque de realidade.

Um casal de velhos faz uma delicada dança do cotidiano: ele bota a mesa, cuida da louça, ela faz o café. Ela cozinha o ovo, ele conta uma história do passado. Diz que não lembra do filme, mas lembra do que sentiu. A gente ri, ou sorri, esperando a pior dor.

É que são tão graciosamente cúmplices na preguiça pela vida chata de contratar um chaveiro, na batalha por reafirmar a própria autonomia… A gente já torce por eles, e por nós, mas sabemos que há um filme pela frente.

Alguns segundos antes de dar merda eles se olham daquele jeito. Repare. “Não lembro, não importa.” Ela entende, tira um sarro da cara dele, como em um dia qualquer, como a gente fez hoje cedo aqui em casa. Ela ainda diz que ele é malvado ou cruel, algo assim.

Será que seria a última vez que ela lhe prepararia o ovo quente? Que ele agradeceria o ovo quente? Ainda fariam muitas refeições juntos em que poderiam se olhar daquela maneira, embaçados, mas contentes, juntos, gostando e desgostando, discutindo e, principalmente, sem saber?

Quantas vezes mais na vida ele iria ao mercado encomendar a água, a verdura, a carne para o bife com salada? O vinho para o copo? Lavar os pratos sem esperar mais nada, só a sequência habitual de cuidar de si e do outro e, de novo, dos limites de não saber?

Imagina quantos olhares à mesa, juntos e à parte. Seus, meus, dos meus pais, dos seus pais, dos nossos avós, amigos, estranhos.
De gente confortável com o silêncio. De gente que não consegue parar de falar.
Uma conversa (ou uma não-conversa).

Uma última palavra.

2 pensamentos sobre “Uma última palavra

  1. decidi sair correndo de casa e me livrar do choro de santa maria escondido no escuro do cinema. escolhi o filme “errado”. errado praquele dia. vi amour. chorei, chorei e chorei sozinho, sentado numa poltrona da segunda fileira. desconfortável. na saída, vi um casal de idosos e, claramente, eu tinha chorado e chorava mais que eles. na mesma semana, criei coragem e dei o play em gritos e sussurros. e chorei mais. tou de folga do divã há semanas. preciso marcar uma sessão. um beijo.

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