Comida confortável, clichê, lugar comum

dicionário de frases feitas

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Mesa farta. Farta de trabalho por fazer e eu também queria escrever sobre a mania de usar um termo até gastar. Pego bronca.

Comfort food. Comida de vó. Gosto de infância. Grrrr.

“O termo comfort food é muito pessoal e pode significar dez coisas diferentes para dez pessoas diferentes”, diz o dicionário de comer e beber e cozinhar.

***

Vejamos. Foi um bom dia repleto de clichês. Comida confortável, se preferir. Lugar comum.

Almoçamos na casa da mãe. Feijão e arroz. Carne de panela. Salada. Mandioquinha. A menina bateu logo dois pratos e tomou suco, e água e suco outra vez. O termo manjado: comfort food. A comida macia que amacia.

Manjar, pudim, doce de coco, queijo e goiabada. Bolo gelado. Cenoura e chocolate. Bolo simples. Bolinho de chuva em tarde de férias à toa. Purê de batata, sopa feita pela mãe (o marido, a irmã, o amigo) quando adoecemos ou estamos exauridos por alguma razão. Milho na espiga, bolinho de arroz, polenta, frango assado, pastel, milanesa, ovo frito. Tudo frito. Bife de panela enrolado com bacon. Bacon.

Não é como feijoada, que causa rebuliço perturbador, mas é como feijão do dia. Caldinho. Tranquilo.

Todos contentes. A vó, de ver a neta roliça e de bochechas coradas. A Raimunda, culpada pela comida, porque não sobrou nem um grão de arroz outra vez.

Gostosa,  bem feita benfeita. Luxo.

Depois de algum chamego e uma cocada de pedra de pia, digo tchau, te amo e corro para a escolinha. Dia de entrevista com os pais antes do início das aulas. Falem sobre ela. Descrevam-na. Muito bom o jogo, mas haja água para engolir solucinho de chorar a cada vez que a gente diz “nossa filha é assim, tem esse olhar, esse jeito, essa voz, faz essas caretas, se esconde, se entrega, é um barato”.

Terminou, vim trabalhar.

***

Em casa,  baixo a guarda, pés no chão e pronto: me dou conta de que o negócio foi puxado e estou exausta.

Descarreguei sobre a mesa todos os papeis a preencher, os preenchidos, os rascunhos, os frilas, a lista do “material escolar”, o computador emprestado, os boletos, os fios imaginários que me mantêm ligada e o celular que uso para trocar mensagens (e tirar fotos, ler e-mail, gravar entrevista, ver mapas e tudo. Tudo, menos falar. Exceto por obrigação).

Abri a geladeira. Tamborilei os dedos. Tomate, não. Maionese, não. Ovo, suco, queijo. Nada. (Por que raios tem uma panela aí dentro?!).

Peguei uma garrafinha de água. Tssss.

Escutei o silêncio da casa sem criança. Fica só o perfume, que ainda desconcerta. Saudade.

Conformada, fiz com os livros por pesquisar uma pilha de ansiedade. Tudo por fazer, contas a pagar. Muito trabalho.

Que bom pra você, boceja o leitor, e eu também.

Deixei a chaleira apitar, a água descansar, o pó coar e abri um pacote de biscoitos de maisena.

Foram uns três enquanto lia e-mails, dois ao responder, mais três ao pesquisar uma pauta entre amigas e a resmungar diante da própria incapacidade de administrar o Gmail.

Fechei o pote de vidro para que elas não percam o viço. Toquei em frente aquecida por dentro e com as ideias mais organizadas.

***

Rendeu um tanto e já é quase hora do jantar. Pego o telefone e telegrafo para o homem que lê os créditos finais dos filmes junto comigo, sem pressa.

Jantarzinho frugal. Pão, mortadela, mussarela. Fatias muito, muito finas. E traz também um vinho alegre, porque hoje quero brindar à nossa filha. Gamay, gamei.

Contente.

FIM

6 pensamentos sobre “Comida confortável, clichê, lugar comum

  1. eee! o sem reservas voltou!! eu nao sabia!
    e ó, a frase mais causadora de sorriso foi: “telegrafo para o homem que lê os créditos finais dos filmes junto comigo, sem pressa”. <3
    beijo!
    helô

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    • helô! que bom que você veio. voltou…! tô contente. ah… gostei que a frase te fez sorrir. taí: ficar pra ver os créditos (ou não) é uma questão e tanto. beijos e obrigada.

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  2. a frase do homem que fica para os créditos é linda, já nasceu clássica. e, preciso confessar, é lindo também ver um homem que nunca ficou para os créditos aprender a gostar e ficar. e, quando você quer sair porque já é madrugada e aquele filme não vale os créditos, ele te lembra que você é a mulher que o ensinou a ficar para os créditos. eu amo um romance.

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