Um dia com mil e uma noites

mil e uma noites

nada como um dia depois do outro (com mil e uma noites no meio)

sábado de novembro a fim de chover. Pensamos um almoço tardio com a menininha e depois passear com ela de mãos dadas pela paulista sem nos importar com as rachaduras provocadas pela inclinação forçada das nossas colunas antigas.

qualquer dor é anestesiada ou abafada pelo prazer de vê-la andar como alguém da turma do charlie brown, uma miniatura de nós, e virar a cabecinha para um lado e outro admirando novidades.

e há também algo de bom nesse horário de verão que detesto só por causa da palavra “verão”. Mostraria para ela as primeiras luzes do ‘Natal’. Não só para ouvir dizer “ôlha! ôlha”, mas também.

enquanto um toma banho o outro ajeita as coisas. Perfumados e frescos e leves entramos no carro acreditando, até o próximo pensamento bruto, que temos tempo, que temos tudo e que esse tudo vai sempre muito bem obrigada.

“Mãe, vamo? Pai, vamo? Tá!”. Ela convoca e concorda.

vamo. Vamo. Vamo. Temos tudo, então.

no shopping tal o libanês é muito bom e fica à parte do manicômio sonoro da praça de alimentação. Tem pia particular. Em meu discreto transtorno, penso que acho tão bom que seja fácil lavar as mãos antes de comer — na verdade, repare, vivemos no tempo e na parte do mundo em que tem água e sabão, mas se você lava as mãos com frequência vão te achar irremediavelmente perturbado. Deveria ser o contrário. Grande coisa, lave e pronto.

a comida lá naquele do shopping é boa e ela, que já come pra fora, gosta muito da esfiha de carne. Quero arroz com aletria. Quero que ela coma arroz com aletria. Vamos.

mas são paulo é uma cidade estranha. E nós também. A gente concorda, mas logo começa um irritantemente bem executado jogo de “e se…”. E se em vez de ir ao shopping a gente aproveitar que não tem sol e for pra rua? Não tem fraldário. Tudo bem, ela tá toda grande e ótima com essa fralda ultra plus extra over maxi seca.

e ela adora a rua. Mas onde vamos? O caminho nos leva ao Paraíso (!). Empório São Jorge? Não tenho certeza se tem o arroz. Tenda do Nilo? Arroz com alegria, aletria.

É minúscula, a tenda. Vai ter fila. Ali perto tem o Shigue, aquele japa dos nossos primeiros anos juntos. Não vamos faz tempo, quem sabe? Teichoku de anchova, arroz, a saladinha de pepino em conserva. Um talvez.

a gente se aproxima da Oscar Porto. Onde estamos? Que São Paulo é essa com lugar para parar na rua, sem estacionamento cobrando em Euro a primeira meia hora?

ela dormiu.

espera é de uma hora, habib.

e ela dorme, temos tempo, esperamos. Estaciona na porta, não tem flanelinha. Certeza? Relaxa.

pegamos senha e cobiçamos silenciosamente juntos os apartamentos que ficam em cima do restaurante, com balcãozinho.

ela acorda e escancara os olhos gigantes, desconcertando um a um. Sem saber, está pressionando para que liberem logo uma mesa. Depois do sono sempre tem fome.

esfiha para esperar, queimar a língua na pressa. Como se diz ‘ai’ em árabe? aaaai. Vai para o chão fazer circuito: corre olhando pra baixo com um sorriso maroto de quem está fazendo marotice.

o clima na espera é de festinha daquele sujeito que é muito seu amigo, mas não se encontram faz tempo e você aceitou o convite dele pensando que a vida é curta, e foi logo levando a família toda que ele ainda não conhece e então você também se dá conta que não conhece mais ninguém que ele conhece e ficam todos em pé desconhecidos em suas panelinhas tomando cervejas de pescoço longo e esperando a vez para sentar. eu gosto. cada um na sua e tudo vai bem, sem escaner de roupa, carro, óculos. todo mundo está ali para comer comida boa, feita com tempero maternal, para engordar os filhos de amor.

chegou a vez. vamos sentar debaixo da tenda, do toldo. esfihas, uma atrás da outra. kafta, pão, pasta, azeite, coalhada fresca. hoje tem couve-flor refogada com tahine. Muito boa. Uma porção de arroz com aletria, por favor. Tem, mas acabou. Trago meia de trigo cozido com coalhada e carne da costela desfiada, vocês vão gostar. As crianças sempre gostsm. Gostamos. As irmãs libanesas ensinam que não se afoga quibe no limão – simples.

de repente me perguntam por que eu não dou de presente ao mundo vinte outras filhas iguais a essa (…).

por que???

a cozinha tá fechando. A cozinheira está cansada, mas feliz. Toma um café na calçada. Saideira de quibe frito. Choveu que não molhou nem atrapalhou. Quero doce. Malabie. Não tem. Depois que a revista publicou um vídeo da minha irmã ensinando a fazer o manjar com geleia de damasco, tiramos do cardápio. Ela dá todas as receitas que você quiser, menos do que vendemos. Hum. Mas então pede mil e uma noites, sugere. “Não tem mais em lugar nenhum do mundo”. A base é um bolo de semolina molhadinho, a cobertura é creme de nata com farofa de pistache. Calda de açúcar que é um mel, perfume de flor de laranjeira. Bom. No tamanho para compartilhar.

Café.

vamos voltar para comer arroz com aletria. Mais cedo? Não, porque é chato comer com a filha (…) de espera te encarando. Então na mesma hora e até dar sorte de não ter acabado. São Paulo é uma cidade estranha e nós também. Melhor sermos os últimos da ronda. Sem pressa.

entramos no carro. Feliz, ela desfila todas as palavras de seu vocabulário de um ano. Todas as últimas palavras de versos soltos das músicas de seu repertório bossa, joão, jazz, cocoricó, pintadinha, leo, julio, joe, cool, rá, tim, bum. mamãe, papai, dinda, dindo, vovô, vovó, vavá, vivi, cacá, deta, ju, cá, chergio, laura, maria. Gato! Vem! Uma atrás da outra. Tanta graça teu nome é sono. Desmaiou?

aperta, cheira o pescocinho, beijo de mãe na bochecha. Nada. Ah… e as luzes de Natal? Voltamos para a Paulista, inconformados. Paramos no conjunto nacional, viramos páginas de livros. Z, z, z…

dorme o invejável sono despreocupado de quem não sabe nada de tempo só de descobertas. Ainda é claro, mas já ligaram o Natal. Dorme.

outro dia a gente vê.

*(do original vizzz.wordpress.com)

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