Comendo nuvens

Bem sombria esta segunda-feira. Gosto de clima nebuloso, embora o lugar comum e os textos da previsão do tempo digam que só está mesmo bom se o céu é azul e o sol brilha. Depois de abrir as cortinas e ficar contente com o nublado, peguei o jornal, coei o café, comi as três bisnaguinhas com maionese e decidi que retomaria, hoje, este Sem Reservas.

***

Ainda estou arrumando as gavetas do que é antigo e, indecisa, mudarei a paleta de cores e a cor de fundo até dizer chega.

Para justificar o título e a defesa do céu plúmbeo (ou, se preferir, a pavorosa conversa de elevador sobre o clima), (re)publiquei a foto do pudim de claras da feijoada da Lana, em São Paulo.

pudim de claras (foto: viviane zandonadi)

pudim de claras

Na primeira colherada, pensei que se um dia fosse escrever sobre esse tipo de doce o título do texto seria “comendo nuvens”.

Feito. Ou quase.

Não pretendo, neste que marca uma nova encarnação, fazer um ensaio a respeito do ovo ou da confeitaria conventual nem contar como me assombra o medo de sentir aquele cheiro, você sabe qual.

É só um pretexto.

Por teimosia, até aquela tarde eu nunca tinha provado esse doce. No primeiro bocado, instalou-se um ruidoso debate interno. Ganhou o prazer de comer uma coisa realmente gostosa.

Quebrada a primeira pedra, caiu de vez o muro e vieram outros pudins. E quindins, suspiros e glacês.

Ao escrever sobre e pensar em comida, me dá alegria e algum conforto saber que basta uma garfada, colherada ou mordidinha, para bagunçar referências e ampliar possibilidades.

***

Eu ainda era criança — já esfomeada, não engordava de ruim nem sonhava que um dia desejaria trabalhar com comidas e palavras –, quando a revista americana Gourmet publicou um extenso perfil de James Beard (1903-1985), um grande nome da comida e da cultura de comida nos Estados Unidos.

O título em português é James Beard: um ícone americano, os últimos anos e está traduzido no livro Banquetes Intermináveis, uma antologia de textos publicados originalmente na Gourmet, selecionados por Ruth Reichl, e editada no Brasil pela editora DBA.

Obviamente não o li na infância, mas há pouco, folheando o livro sem destino certo.

Se o senhor Beard estivesse vivo, ele seria centenário e eu o seguiria no Twitter e no Facebook.

O texto assinado por Jay Jacobs termina assim:

“…Seu princípio básico — mais honrado na violação que no respeito aos esnobes da comida e estilistas gastronômicos — é que as artes culinárias não estão legitimamente preocupadas com mostras de virtuosismo ou originalidade, mas, sim, com o maior prazer possível da bondade intrínseca da comida honesta.”

É isso: não precisa chorar, rezar nem ajoelhar nem morrer.

Não precisa botar “gourmet” na frente pra valorizar.

Não precisa bajular, competir nem ostentar.

Bom mesmo é obter “o maior prazer possível da bondade intrínseca da comida honesta”.

Pronto, com boa comida e palavras de comer tento voltar aos trilhos. Vamos ver no que vai dar.

Coragem (e paciência).

P.S. se alguém souber como faço para dar sumiço ou reposicionar aquele montinho de informação que aparece embaixo do título, por favor me diga. É muita coisa logo ali onde tudo começa, e me ataca o labirinto. Obrigada.

3 pensamentos sobre “Comendo nuvens

  1. Se “aquele cheiro” for o que estou pensando, o cheiro de ovo que gruda nos copos e nos pratos que a gente usa para bater claras, e gemas, e gemas com claras, eis aqui uma companheira no medo.
    Se não for… bem, agora você já sabe: tenho horror de cheiro de ovo. :-)

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    • é ele, Gabi. sabia que além do contato com o ovo as louças podem ficar com o mesmo cheiro se não forem enxaguadas direito? aprendi em uma aula na abs, quando perguntamos ao professor o motivo de alguns copos e taças terem um cheiro forte. ele explicou que o resto de detergente forma um filme que emula o cheiro de ovo.
      tenho pânico e vivo atrás de técnicas.
      adoro ovo, mas tenho horror ao cheiro
      – pó de café em louças usadas com receitas de ovo ajuda a tirar o cheiro na hora de lavar
      – para louças em geral, SEMPRE enxaguar exaustivamente. eu tenho toque. cheiro a louça trezentas vezes antes de botar no escorredor :)

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