Não existe almoço grátis

Nunca tinha ouvido falar de Paula Deen. Agora já sei. Muito famosa nos Estados Unidos, é uma cozinheira americana de 65 anos, dona de restaurante e apresentadora de TV. Tem livros de comida premiados e um site de receitas bonitão.

Paula Deen e os filhos apresentando o novo site de receitas "leves"

Paula Deen e os filhos apresentando o novo site de receitas “leves”

De cara, Paula Deen parece personagem das Supergatas, aquele seriado das velhinhas assanhadas que a Globo exibia no fim de tarde há uns vinte anos, quando eu chegava da escola (!). Cabelão branco ajeitado, pele de boneca de Photoshop.

Paula divulga uma comida caseira, com a pegada do sul dos Estados Unidos, sua terra. Em geral, receitas gordas. Hambúrguer com ovos e bacon, frango frito, macarrão com queijo, muitos cremes, muitos bolos, muito açúcar, muita manteiga.

Há poucos dias, ela contou para “todo mundo” que tem diabetes tipo 2, doença que estaria tratando há uns três anos, em segredo. “Todo mundo”, por sua vez, comovido ou ofendido, começou a palpitar. Seria Paula uma “hipócrita, comendo light e diet para se cuidar enquanto ensina receitas muito gordas para todo mundo comer em casa?”, “Por que não contou antes?”.

Em entrevistas, a apresentadora defendeu-se dizendo que estava “digerindo” a doença, por isso segurou a informação. Disse também que sempre falou para todo mundo se jogar “com moderação”. “Sou cozinheira, não sou médica.”

A imprensa americana repercutiu: Paula, que era pobre e ficou rica cozinhando pra fora, tinha o direito de esconder que tinha diabetes? Não sei, só sei que ela resolveu contar agora, quando começou a estrelar a campanha de um medicamento usado no tratamento da doença e que também patrocina seu novo site.

Comercialmente, pelo menos, dona Paula tentou virar o jogo. Trouxe seus filhos bonitões igualmente photoshopados para uma foto bem produzida e avisou: agora teremos um canal de comidas light para mostrar para todo mundo que “a diabetes não precisa tomar conta da gente e que comer ainda pode ser um prazer”.

Crítico de Paula Deen, o também apresentador e celebridade de comida Anthony Bourdain disse em seu Twitter que ia sair por aí “quebrando as pernas das pessoas para depois vender cadeiras de rodas”. Ouch.

De minha parte, não culparei os inventores do churrasco, da pizza, dos queijos e dos bolinhos de chuva pelo meu colesterol quase limítrofe, e que até diminuiu no último ano sem que eu movesse um músculo. As escolhas são minhas.

Também não vou processar a cozinha francesa, porque amo manteiga e acho que tudo com manteiga fica mais gostoso. Mas não vou comer tapioca com manteiga todos os dias – embora eu coma pizza umas três vezes por semana.

Em uma negociação longe de ser desesperada, seguirei bebendo água sempre que lembrar e alimentando meu caso de amor eterno com a cozinha mediterrânea, o azeite extra-virgem, o vinho tinto, as castanhas e as frutas da temporada. Vou fugir do hambúrguer com amônia, mas vou continuar comendo hambúrguer, como fiz ontem, no almoço de plantão, porque eu mereço esse agrado.

É meio óbvio, mas talvez o problema seja menos o que a gente come e mais como e quanto a gente come – tudo combinado a outros fatores como predisposição, informação e hábitos.

Agora, sobre a conduta da apresentadora de TV, já diria Pirandello. Assim é, se lhe parece. E vamos deixar de fingir que somos bobos, porque não existe almoço grátis. Existe?

8 pensamentos sobre “Não existe almoço grátis

  1. Não sou de ler determinados tipos de matérias, porem o titulo me chamou a atenção.
    Para minha surpresa um assunto bem interessante e que reflete o estilo “american way”, que vende de tudo até um estilo de vida sem equilibrio.
    Que sirva de lição para as pessoas que gostam de enaltecer o que vem de fora do Brasil.
    Tenho tv a cabo e fico horrorizado com as coisas que são passadas para os telespectadores, sem qualquer temor que aquilo faça mal a eles.
    Parabens pelo teor da matéria e pelo enfoque dado sobre o assunto, principalmente depois que o indice de obesos no mundo vem crescendo assustadoramente.

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  2. Alô, reporter que eu nunca li.

    Gostei do seu texto e da sua postura. Todo mundo sabe que se tomar meia duzia de cachaças por dia, todo dia, não dura até os sessenta.

    Se comer quatro mil calorias por dia, engorda, se não gastar duas mil de exercícios. Haja exercicios!

    É uma hipocrisia danada ficarem bravos com a moça. Bacon, manteiga, açucar, são bons pra caramba. Cachacinha boa tambem. É só desajuizar só de vez em quando.

    Abç

    Rubens

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  3. Leio bastante a coluna do IG Comida, mas esta foi especialmente irônica, inteligente e, por que não, divertida.
    Adorei o texto da jornalista Viviane Zandonadi.
    Vamos acabar com a hipocrisia e assumir a responsabilidade por nossas ações e desejos, inclusive por aquilo que comemos.

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  4. Se eu atirar em alguém, posso culpar o fabricante da arma? Se eu acelero o meu veículo ao limite e provoco um acidente a culpa é da montadora? Todos fazemos escolhas que definem quem somos e para onde vamos. A pessoas têm que entender que, cedo ou tarde, todo mundo morre. Deus, ou a natureza, nos colocou num ciclo de nascimento, crescimento, reprodução e morte para restaurar o equilíbrio do planeta; contudo, foi malvado(a) o suficiente para nos dar uma consciência de nossa mortalidade – eis a nossa maldição.

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  5. Prezada Viviane Zandonadi, bom dia!

    Como faço para entrar em contato contigo? Represento a Editora Boccato e neste momento estou coletando infomarções dos blogues gastronômicos mais influentes para o nosso banco de dados.

    Aguardo retorno.

    Grato
    Henrique Boccato

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