A comida e a felicidade conjugal

“Things have come to a pretty pass
Our romance is growing flat,
For you like this and the other
While I go for this and that,
Goodness knows what the end will be
Oh I don’t know where I’m at
It looks as if we two will never be one
Something must be done

(Let’s Call the Whole Thing Off)”

Potato, potáto, tomato, tomáto. Let’s call the whole thing off. As bocas de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald brincam com esses versos enquanto eu leio uma história. Resumo aqui: era uma vez dois irmãos, o rico e o pobre. Na hora do jantar, na casa do rico, fartura, tantos criados e uma mesa enorme. Homem e mulher, como se estivessem um em cada extremidade da avenida Champs Elysées, não se viram o dia todo. Mesmo assim, agora se encontram mas não conversam. Ficam em si, mesmados. Ensimesmados. Retraídos, calados. Finalmente, uma troca de palavras indigestas e, uma discussão depois, vai cada um para um lado a imaginar como seria bom qualquer hora dessas saborear as “doçuras da viuvez”.

Enquanto isso em sua casa o irmão pobre encontra um jantarzinho frugal (talvez um bom ensopado com legumes, pão fresco repartido, uma fatia de queijo, frutas…?). Sem excessos, mas formidável. Não podia ser melhor, pensa, pois foi feito por sua querida mulher, seu amor. Meia garrafa de vinho Madeira ajuda a colocar um ponto final no lanche, mas eles adiam o último gole e prolongam a conversa. Comem, dão risada, falam das dívidas, dos projetos, fazem planos. Está tudo bem mesmo não estando tudo bem.

Não pergunte de quem é a história, não lembro. Nem conheço o que existe além desse episódio encontrado por acaso, virando páginas de A Fisiologia do Gosto, de Brillat Savarin, quando, na verdade, procurava anotações sobre um passarinho que os franceses costumavam preparar e comer em um ritual capaz de superar a tal gavage no que se refere a requinte. Requinte de crueldade. O passarinho é ortolan (acho), mas isso é uma outra história — história que fico devendo aos compadres Eliane e João, eternos namorados que por sinal adoram comer bem juntos, desde uma mesa diminuta em um bistrô de sabores superlativos até atacar sem dó um café colonial gaúcho, um churrasco impecável, detonar uma lata de leite condensado ou um pacote de lámen vendo Monstros S/A na tevê. Vivem bem os meus amigos. E, agora, “A influência da gastronomia na felicidade conjugal” é o capítulo que atravessa minha pesquisa e no qual o autor de certa forma defende que infelizes são os casais que não têm afinidade gastronômica.

E é isso mesmo. Temo parecer maniqueísta, mas me surpreendi assentindo com a cabeça diante dessas palavras. Que tal? Quem gosta de comida consegue ser feliz com alguém que se alimenta por obrigação ou vive restrito a um repertório de meia dúzia de ingredientes, sem o menor desejo de experimentar, sair da zona de conforto, enfrentar o azedo, o ardido, o áspero, o doce, o liso, o perfumado? Alguém que torce o nariz para tudo ou que é incapaz de encontrar prazer porque passa o tempo todo contando calorias? Alguém que não se comove diante de uma banca de frutas multicolorida, das promessas contidas em caixinhas de temperos e especiarias, de um piquenique fabuloso, um brigadeiro, uma coxinha, um pedaço de bacon bem empregado… da intimidade que é partilhar a sobremesa? Dificil. Ah, esses campeões de fazer fusquinha não tardam a ficar com as narinas flácidas de tanta carranca.

Quando um não quer, dois juntos não comem bem. Não precisa ser nada muito complexo. Pode ser a generosidade de fazer para o outro canapés de camarão à provençal (fino, hein) ou um singelo tostex para devorar no sofá enquanto assistem juntos a alguma coisa na tevê, o jornal das dez, se o ofício exigir. A graça de, depois de um dia de trabalho, dar um respiro. Uma boa conversa sobre qualquer coisa, um belo peixe assado com sal, alho, ervas e limão. Uma pasta simples na manteiga. Um copo de pinot grigio (estou de caso com essa uva, mas pode ser qualquer outra branca.).

Comer junto no restaurante também tem seus muitos predicados. Entre eles, garfar o prato alheio – por que o pedido do outro é sempre o mais gostoso? Por que o outro sabe escolher, ora. Escolheu você, lembra?

ceia na Provence

um lanchinho em inverno provençal não muito distante: era noite de Ano Novo, a garrafa de rosè foi um presente. Nevava não muito longe dali, mas a nossa casinha era aquecida. Não teve fogos (proibidos no interior da França) nem Copacabana. Mas teve comidinhas gostosas compradas no mercado local. Boa música, ótima conversa e a melhor companhia

8 pensamentos sobre “A comida e a felicidade conjugal

  1. Que texto lindo, Vivi! Muito sensível e muito perspicaz. Adoro o teu estilo! Só quem sabe comer – a dois e a muitos, como com os compadres :), ou na própria companhia – consegue escrever com tanto gosto e dar tanto prazer aos leitores. Parabéns! Texto delicioso!

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  2. Puxa, que lindo!!! Amei seu texto, tão bem escrito, tão cheio de verdades, bom gosto e poesia!

    me fez lembrar de:
    “Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquete e muitas brigas” Provérbios 17:1

    Me deu vontade de ler outros textos seus.

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  3. Parabéns…lindo texto….expressa meu modo de ver e viver a vida , desta maneira é que acho que vale a pena compartilhar os prazeres gastronomicos. Adoro seu blog, excelente!!!! Abraços!!!

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  4. Que delícia de texto!
    Me lembrou um provérbio biblico “É melhor um bocado seco, e com ele a tranqüilidade, do que a casa cheia de iguarias e com desavença.
    Provérbios 17:1”

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  5. E quando os dois comem muito bem juntos, reforçam o “we belong together” nosso de cada dia.
    Lindo texto, linda a sua foto no cabeçalho do blog. Sucesso, beijo, Eli.

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  6. Pingback: Uma dorzinha no “voltar para casa” (ou um amor de domingo) – Lembraria

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