Reflexões sobre o leite derramado

Nesta semana assinei o Netflix. É uma espécie de locadora de filmes, séries e seriados 100% online. Há tempos esperava por ela, que chegou ao Brasil ligeiramente manca – suas “prateleiras” ainda não estão muito bem ocupadas, fazendo sobressair as tranqueiras e tornando seu slogan (veja o que quiser, quando quiser) um tanto falacioso, mas a promessa é melhorar. Enquanto espero, crente, revejo desde o primeiro capítulo minha série preferida, Mad Men, sobre publicitários da Madison Avenue, em Nova York, na década de 1960.

Gosto do enredo, do figurino de pinup das moças, do clima, do Don Draper e do relato do cotidiano daquela gente. Um cotidiano tão interessante quanto estapafúrdio e verdadeiro. No subúrbio, enquanto seus maridos trabalham e saem com as amantes em Manhattan, as donas de casa pseudo felizes e muito desesperadas fumam um cigarro atrás do outro, algumas exibindo barrigões de grávidas. Mãos, cabelos e peles impecáveis. Tentam abafar as próprias neuroses e frustrações falando da (in)felicidade alheia. Pega uma criança fumando escondido? Poxa, você quer botar fogo na casa? Pega outra brincando com o saco plástico da lavanderia na cabeça? Cadê a roupa que estava aí dentro? (o risco de sufocamento é um mero detalhe). Enfim.

À mesa com Don Draper e os filhos, em Mad Men

O jantar das criancinhas: salsicha, catchup e… leitinho

Acabo de ver uma cena em que a mãe, Betty, a lindona mulher do protagonista, completamente absorvida por seus problemas, monta o prato das crianças: milho e ervilha enlatados escoltam salsichas empanadas. Para acompanhar, catchup (…). E um copão de leite. Jantarzinho difícil de digerir, imagino.

Acho que esse hábito de um copo de leite junto com a comida é deveras estranho, mas me botou a pensar (mais) em leite.

Nunca esqueço das viagens que a família fazia para Iperó e da leiteira de alumínio que era usada para ferver o leite gordo e perfumado que chegava toda manhã ainda cru, morno, vivo, direto da teta da vaca. Era muito, muito cedo mesmo. O chão molhado de orvalho. Dentro das minicasinhas brancas, a gente madrugava e bocejava. A higienização do mundo mandava ferver o leite e implacavelmente matar seus bichos. O dia amanhecia com seus barulhos habituais, pontuados por recomendações amorosas de mãe e avó.

Bebe antes que esfria. Come todo o pão. Agora vai brincar.

Leite derramado/Getty Images

Leite derramado

Quase não usa mais ferver assim, porque o que temos mais à mão é o leite de fábrica todo trabalhado, enriquecido, vitaminado, desengordurado, esterilizado e o que for mais conveniente para o freguês, acomodado em caixinhas de vida mais ou menos longa e bem desenhadas para caber nas geladeiras pequenas dos apartamentos pequenos. Aquecer, sim. Ferver jamais. Ferver mata o que precisa absorver, dizem.

Mas sou fora de moda e, toda manhã, invariavelmente, assassino as propriedades nutricionais do leite fervendo-o até derramar. É que sempre lembro de esquecer o fogão aceso e fazer outra coisa enquanto espero, como arrancar aquelas irritantes sobrecapas dos jornais ou beber um Yakult na janela, para ver de que jeito o dia rompe meu jejum. Mas se estiver diante do fogão quando o leite sobe, espumoso, lindo, consulto essa memória afetiva e… Pronto. Derramou outra vez.

Cheguei a esses fragmentos de leite derramado pensando em como essa bebida, de gente ou de bicho, está completa e inevitavelmente injetada em nossas vidas, seja porque a pessoa precisa e/ou adora, seja porque odeia ou o estômago não tolera.

Repara. Primeiro é o leite materno e sua poderosa fonte de tudo nos primeiros seis meses de vida ou mais. Aprendi com os sábios: o bebê se arranhou esfregando as mãozinhas no rosto? Passa o leite que sara. E sara mesmo. Além de tudo é cicatrizante. E na indústria alimentícia engenheiros, cientistas, nutricionistas e médicos empregam todos os neurônios na tarefa de descobrir como formula esse leite mágico. Caríssimo, por sinal. Anos e anos de pesquisa para ajudar a mãe que por algum motivo não pode amamentar naturalmente.

Tá triste, com dorzinha na alma, angústia? Leitinho morno para descansar as emoções. Café expresso deixa-o transtornado? Um pingado, por favor! Uma bebida com sotaque italiano? Capuccino, caffè late. Francês? Au lait.

E não importa se você é mais faroeste espaguete, adaptação de Jane Austen ou ambos. Friozinho no sofá no domingo de manhã, com muita preguiça e pouca expectativa, é amigo de uma mantinha macia e uma cumbuquinha de mingau quentinho (para cada xícara de chá de leite, duas colheres de Maizena. E eu coloco uma outra colher de sopa cheia de açúcar. Mexo sem parar, para não fazer carocinhos).

Tudo é poesia até que, de repente, tanta gente começa a tapar a boca e dizer que aquele arrotinho discreto não é por falta de modos, não, mas porque sofre de uma tal intolerância ao leite, lactose ou algo do gênero. Tanto mal estar e barriga barulhenta passaram a ser explicados assim. E então as prateleiras dos supermecados já estavam tomadas por produtos de pouca lactose. Leite de soja, afins. Já notou que para algumas pessoas leite é démodé?

Leitinho morno, de vaca e integral, para embalar o sono? Bobagem, dizem, coisa antiga e que dá pesadelo.

Pois eu tenho saudade do leite com chocolate engrossado com leite em pó que a mãe preparava antes de eu ir para a escola ou para levar com a merenda em um copinho plástico de tuppeware. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha cinco anos e estávamos sentados em círculos na hora do recreio. Eu usava uma calça vermelha boca de sino e estava contente porque era uma sexta-feira feliz, a gente não precisava usar uniforme e fazia frio, um friozinho úmido. O copo escapou da minha mão e logo o leite estava derramado. Minha roupa, minha fome, minha vergonha. Chorei muito no banheiro e minha maior amiga (no tamanho e no afeto) tentou me consolar…

Engorda, pensei um dia e diminuí a litragem. Tolice que vem com a idade e cada vez mais cedo. O que engorda primeiro, exceto nos casos de saúde, é a cabeça mesmo. Dou uma espiada na Catarina, meu bebê adormecido com o maior ar de satisfação, depois de mamar. Quatro meses em uma manhãzinha plúmbea de sábado. Bochechas modeladas, rosadas e gordinhas. Hoje, em seu mundo de ainda desconhecidas possibilidades, ela adora leite. Até quando, hein? Será que vai querer mingau ou será da turma do não tolero? Minha querida, na hora certa, você vai saber que sem leite, muita coisa não há:

Pudim de leite

Pudim de leite

Doce de leite
Pudim de leite
Creme brûlè
Brigadeiro

9 pensamentos sobre “Reflexões sobre o leite derramado

  1. Viviane Zandonadi, num dia como o de hoje ler tuas histórias é, sem dúvida, um deleite pra nós outros, você tem razão deve-se ferver o leite (eu também tive mãe) pois numa ocasião em desses do tetrapak desandou após passar pela prova do fogo, ou seja, qualhou-se todo e, ademais o leite tem potássio; os tenistas profissionais deviam tomar ao invés de comer bananas. Esse conheço um netflix mas não te conto porque é coisa de homem. Por fim, ante essa barrafunda toda que os anjos tapem os ouvidos da pequena Catarina. Tenha um bom dia, abraços.

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  2. Vivi, não tomo leite, mas os derivados…..ummm, não tem como fugir, que seria de nós sem os queijos, doces a base de leite, cremes…..são tantas utilizações deste produto tão versátil, que seria muito triste ter intolerância a lacotse e não poder se fartar com tudo que podemos fazer com ele. Já estamos quase de partida para mais uma temporada na Provence e na Toscana, e certamente sentirei falta de nossas conversar a beira do fogão.

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    • Marcelus, de sonho a programação da Al Mondo este ano. Lembre da sugestão que eu fiz: vamos levar as criancinhas para perturbar o sossego da Provence! Um beijo para você e outro para a Suzi. Boa viagem e mande notícias!

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  3. Viviane,

    legal, adorei. Pra mim é novidade total essa história de tomar leite sem ferver.

    Nunca soube disso e considero um atentado.

    Eu sempre deixo o leite subir, que é para matar os micróbios e livrá-lo das impurezas.

    bjs

    Wander

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    • Também fiquei surpresa, Wander, e, igual a você, prefiro a recomedação mais conservadora: ferver sempre. Para evitar que derrame, minha mãe ensinou a colocar uma colher (grande, daquelas de pegar o arroz) dentro da leiteira. Não impede que o leite saia, mas adia. A gente percebe logo o ponto de fervura antes de efetivamente derramar. Não tenho a menor ideia da explicação para isso, mas já testei e deu certo: consegui evitar a sujeira no fogão algumas vezes :) bjs!

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  4. Muito bom! Adorei, como adoro um café com leite, herança de mim mesmo, minha infancia e que deixa tanta gente surpresa. Como assim, um marmanjo desse tamanho tomando café com leite?
    Dou risada e sigo, acariciando minha memória afetiva.
    Obrigado por compartilhar esse texto descontraído e cheio de memórias!!!

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  5. Sinto, mas a primeira coisa que este lindo texto me lembrou foi de uma antiga colega que se divertia em contar de uma tia sua cuja maior convicção científica era a de que o leite só fervia mesmo quando se virava as costas para a panela.

    Depois dessa lembrança, que muito nos divertia, veio a felicidade por saber que Catarina gosta de leite! Acho uma tristeza total quando a criança se dá mal com leite.

    Um beijo para Catarina!

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