Músculo é carne de quinta (e segunda, terça…)

Chico Buarque pede socorro

Chico Buarque pede "socorro"

Se gostei ou não deste novo disco de amor, sem Marieta, não importa. Chico Buarque é Chico Buarque, já diziam as tais mulheres de Atenas, provavelmente mais apaixonadas pelo poeta do que por seus maridos. Compartilho aqui uma coisa linda e engraçada que tem circulado no teclatecla-curtecurte das redes sociais. Deu no Piauí Herald, leia, portanto, sem medo da piada: Bilhete de Chico Buarque à diarista é considerado magistral. Na missiva, o compositor de olhos de abismo pede para a moça preparar um “guizadinho [sic] de carne com abóbora”.

Trecho da “repercussão”: “Um grupo de semioticistas da UNICAMP estudará a despensa de Chico Buarque. “As compras de supermercado dele são geniais”, disse um deles.”

Outro: “Epaminondas Veras, do Estadão, preferiu ressaltar o sentimento agônico que se instala no leitor ao cabo da leitura. “Terá Socorro deixado o guizadinho (sic)? Estamos na estação das abóboras? Nada disso se resolve na leitura, e Chico nos deixa a contemplar a possibilidade do abismo. É uma experiência devastadora.”

Morro de rir. E fico com fome. E vou além nas indagações: será que a Socorro usou músculo no cozido? Hein?

Eu, que achava que de abismos e Chico estávamos todos bem só de se jogar na genialidade das canções, sou surpreendida com a análise e uma pegadinha, claro: guiZadinho com Z, minha gente, com Z! Só o Chico poderia, né? Ótimo.

* nota da autora: depois da publicação deste post, a redação do Piauí Herald corrigiu a grafia da palavra guisado, que havia sido escrita com ‘z’ n lugar do ‘s’

Eu, que nem sou genial, tenho uma despensa “interessantíssima” cheia de água de coco encaixotada e também deixo meus bilhetes para a Josi. Eu e o Chico temos a ver!

Mas no dia em que pedi para a moça fazer um guisadinho de músculo com abóbora na pressão, assim, olho no olho, nada por escrito, ela ficou com cara de ué. “Nunca fiz músculo na vi-da. Como é essa carne?”.

Ora, ora. Fico imaginando o que comia “aquela gente rica” que você alimentava na “casa do Morumbi”, seu outro emprego. Divago… Teriam eles preconceito e, ainda, preguiçosos, seguiriam como cegos a cartilha que classifica os cortes de carne entre os “de primeira” ou “de segunda?”. Se estivéssemos no Facebook eu usaria o botão personalizado: “Vivi lamentou profundamente seu status”. Afinal, minha gente, o que é a vida de quem come carne sem pelo menos uma boa dose de músculo? Lamentável.

A Josi é baiana e, antes de tudo, cozinheira. Vai abrir o próprio restaurante, incentivo. Estuda, se mete em receitas que nunca fez, gosta do que faz. Como outra baiana, a mãe do Caetano, sabe que o sal é um dom e o usa com parcimônia, provando, corrigindo.

Mas se a Josi não conhece músculo e suas múltiplas e saborosas possibilidades, vai precisar cozinhar um pouco mais antes de voltar para a Bahia como chef de cozinha, não é? Eu nem sou cozinheira, sou comilona, mas penso que é assim… Acho bom, assim ela fica mais tempo aqui em casa criando músculo no ragu da massa, na sopa restauradora, no guiSadinho com abóbora escoltado por arroz e saladinha… ai, ai.

O músculo, dianteiro ou traseiro, é “de segunda”. Concordo. E de terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Está na linhagem dos cortes mais firmes (sim, duros), que pedem longos cozimentos – ou o uso da pressão, para quem tem pressa. Revela-se muito mais saboroso do que muito filé por aí. Além disso, músculo dá um caldinho muito, muito, muito nutritivo.

Cá entre nós, só de falar em uma carne que “pede longos cozimentos”, tantas vezes mergulhada no vinho, a gente já pensa em poesia: cozinhar com tempo, abrir uma garrafa de tinto e pensar na vida. Depois, comer com calma, continuar a secar a garrafa de tinto e a pensar – ou não – na vida, a nossa ou a que a gente poderia ter se… Sei lá. Perfeito.

Uma dieta de músculo, em notas:

– na receita original, o boeuf bourguignon, prato emblemático da culinária francesa e de raiz camponesa, é feito de músculo cozido em vinho, com os temperos e buquê garní. È um dos desafios da Julie, em Julie e Julia, lembra? Virou coisa de mesa fina depois. No interior, cozinhar carne dura no vinho era o jeito de amaciar. E fica mesmo uma delícia.
– no filme Sábado, Domingo e Segunda, Sophia Loren ensina a comprar a carne e a fazer o ragu napolitano direto de um casarão lindo na beira-mar mediterrânea, à sombra do Vesúvio.
– caldinho de músculo é bom pra saúde, claro, mas também faz carinho em coração melancólico. Depois, uma lata de leite condensado de sobremesa. Tudo passa.
– sim, é tempo de abóbora. Nao sou cozinheira, já disse, repito e sublinho, mas dou meus palpites. Marinada em cebola e ervas, refogo a carne com alho quase cru (quero encontrar pedaços inteiros dele no cozido, só deixo soltar o perfume aquecendo-o em uma misturina de azeite e manteiga). Cozinho o músculo na pressão, coberto de água e sem sal, conferindo o ponto depois dos primeiros 20 minutos. Quando estiver bom, incorporo os pedaços de abóbora do tipo moranga por, talvez, dez, vinte minutos no máximo (sem pressão)? Cozido, salgo. Vai bem com salada, arroz fresquinho. Almoço feliz (fica bom também cozinhar outros legumes mais al dente, como cenoura e abobrinha, e/ou tomates pelados.)

Veja também: receita de cozido indiano com músculo bovino, creme de leite e iogurte e outras receitas com músculo nesta reportagem da Roberta Malta sobre carnes. De primeira.

13 pensamentos sobre “Músculo é carne de quinta (e segunda, terça…)

  1. Cara Vivi, parabéns, as carnes ditas de segunda são maravilhosas, basta fazer o cozimentto correto e se deliciar. Eu sou apaixonado por cozimentos longos a baixa temperaura.

    Curtir

  2. Lá em casa todo mundo gosta muito de músculo feito na panela de pressão acompanhado de macarrão e salada verde. Nunca fiz com abobrinha, vou esperimentar deve ficar uma delícia.

    Curtir

  3. Adorei! O pessoal realmente tem preconceito se não for file mignon, alcatra ou picanha. Parece que o resto do boi vai para o lixo. Mas põe um título em frances e todos adoram. Eta gente fresca!

    Curtir

  4. Viviane Zandonadi, tantos comentários suscitados são mais devido ao autor do aludido bilhete tratar-se de Chico Buarque e não é novidade nenhuma a sua incursão na cozinha veja, por exemplo, a música “Feijoada Completa”, todavia me chama atenção o nome do jornal do Piauí “Herald” em total dissonância com o comezinho nacional. O tal de guiSado é assim chamado no Sul do país e feito com carne moída mas também pode ser guiZado, assim como, abóbora ou jerimum mas seria esse pedido do Chico uma manchete nacional se tivesse escrito CONCURBITA PEPO, já imaginou o reboliço no meio intelectual?. Eu também faço esse negócio aí: Pedaços de músculo traseiro, legumes ( prefiro batatas e mandioca ), no mais é refogar, esquentar àgua, cebola e alho mais óleo na panela de pressão e pronto está feito o GUIZADO. Um abraço!

    Curtir

  5. Vivi, você já comeu carne moída de músculo? É uma delícia. E por falar em comida, tenho cozinhado muito. Depois um dia, quem sabe, trocamos receitas ou você me apresenta Josi para que ela possa me dar conselhos enquanto não vira chef.
    Beijos e adorei ler teu post.

    Mari-Jô Zilveti
    http://reginapaz.wordpress.com

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s