A garçonete e o poder curativo de uma boa torta

a garçonete

todos os humores de uma torta

Não sei se você conhece Jenna. Talvez já tenha topado com ela em algum canal de filmes da TV a cabo ou na prateleira da locadora – capaz até de ter desprezado, posso entender, por causa desse cartaz meio bobo. Ocorre que a moça é a protagonista de uma fita de mulherzinha – que muitos homens também assistem, eu sei. Em segredo ou acompanhado, é ótima desocupação para uma tarde chuvosa e preguiçosa de verão – pronto, fiz um post sazonal.

A dramédia romântica A Garçonete trata dessa moça brilhante na cozinha (um gênio das tortas). Só que, como sabemos, para o filme existir a heroína tem de gramar. Portanto Jenna é, também, uma frustrada na vida pessoal e enroscada com Earl, o marido. Este último, não é nada além de um néscio completo.

Quando descobre que está grávida do infeliz (tudo tem uma explicação, ou não), Jenna é invadida por um processo criativo violento, infalível combinação de sabores inspirada por pensamentos politicamente incorretos sobre… tudo, até o bebê – uma situação bem comum em grávidas. Mixed emotions produzem tortas fabulosas e mães também, assim espero.

Jenna (Keri Russell, aquela que tem voz de travesseirinho e era a protagonista do seriado Felicity) tem talento fora do comum para criar e fazer tortas – e batizá-las de um jeito bem passional. Invariavelmente, suas confecções são uma mistura de instinto com experiência pessoal. Catálise de sentimentos confusos. Imagine que o marido intragável (um idiota, se já não mencionei) apronta uma. Jenna tem uma ideia para torta (I Hate My Husband Pie, ou torta eu odeio meu marido). Ao se apaixonar pelo ginecologista, outra inspiração (I Can’t Have no Affair Because is Wrong and I don’t Want Earl to Kill Me Pie). Ao tomar uma invertida do chef, mais uma. Descobriu que está grávida e não fica feliz com a notícia…? Idem. Nasce a Pregnant Self  Pitying Pie, ou  torta da grávida com pena si mesma, que mais adiante, no pré-natal, vai ganhar uma prima chamada Don’t Want Earl’s Baby Pie (torta não quero o bebê do Earl). Mas nem só de rancor é abastecido o laboratório de Jenna. Primeiro porque, com ou sem mágoa, o resultado é bom. Além disso, a torta estou apaixonada (intensa, feita à base de chocolate) e aquela outra, coberta de marshmallows coloridos, não deixam dúvida: a alegria também inspira. Mas os artistas não costumam castigar o papel quando estão tristes? Normal.

Enfim, cada execução de confeitaria tem, para Jenna e para quem se joga nas tortas com ou sem culpa, um certo poder curativo, confortante. Empregada de um café tipicamente americano, que serve suas criações doces e salgadas no café da manhã, no almoço e no jantar, logo ela vai acabar se apaixonando pelo obstetra fofo e casado que chega à cidade. Ao mesmo tempo, tenta escapar das patadas do Earl e dar um jeito de participar de um concurso de tortas para levantar 25 000 dólares e deixar o néscio para trás.

Waitress não é um filme novo, é de 2007. Mas isso não faz muita diferença. Nem reviro os olhos quando uma criança quer ver e rever O Rei Leão incontáveis vezes, faço igual com minha coleção de DVDs ou na tevê. E, embora não tenha muito jeito para decorar falas ou nomes de personagens – talvez exatamente por isso… -, assisto alguns filmes outras e outras vezes. Inteiros, pela metade. Enfim, com A Garçonete (Waitress), é assim.

Aliás… mesmo sendo uma indisciplinada quase completa, vou tentar ver um filme de comida por dia. Ou pelo menos uns cinco por semana. Quando achar que vale, comento aqui. Começo revendo meus preferidos, como O Jantar (Ettore Scola), Soul Kitchen (Fatih Akin) e o óbvio, mas não menos emblemático, Festa de Babette (Gabriel Axel).

***

A diretora de Waitress é Adrienne Shelly, a colega mais desajeitada da Jenna-Felicity no filme. Ela morreu antes de ver seu trabalho brilhar, com indicações e prêmios, em festivais de cinema independente. Pior: morreu por uma coisa estúpida. Um trabalhador de uma construção vizinha teria ficado irritado porque Adrienne reclamou do barulho da obra. O sujeito foi atrás dela, simulou suicídio, mas acabou condenado.

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