A doce intimidade de compartilhar a sobremesa

Spoonful
Spoonful (Etta James e Harvey Fuqua)
Could be a spoonful of diamonds
Could be a spoonful of gold
Just a little spoon of your precious love
Satisfied my soul

Compartilhar a sobremesa é um gesto de intimidade. Acho lindo quando mesmo sem ninguém pedir o garçom traz o pratinho com duas colheres. Sugere a partilha. Nem estou dizendo isso para que você feche os olhos e imagine alguém da sua fantasia, na sua frente, lambendo a colher de um jeito lascivo. Estou falando de intimidade de verdade: simplesmente duas colheres, uma sobremesa e a cumplicidade.

Pingou no meu twitter uma citação do poeta Manoel de Barros. “Ando em vias de ser compartilhado.” Gosto do que ele escreve, porque me faz sorrir por dentro. Sempre. Pensei que no meu caso, grávida, não estou bem em vias de ser compartilhada. Já sou. E mais tarde enquanto bebia uma divertida vitamina de banana com aveia (duas bananas prata, um copo de leite, quatro colheres de aveia, mel ou um pouquinho de açúcar), fui ler os jornais. O Marcelo Coelho, na Folha de S. Paulo, escreveu sobre os bolinhos individuais e de cobertura colorida e confeitada, os cupcakes. Para ele, uma descoberta. “O cupcake, mínimo e caro, é mais um passo na individualização da nossa vida gastronômica.” (…) “O cupcake introduz, nessas muralhas de resistência afetiva, o espírito do cada um por si. (…) deixa aos poucos de fazer parte da esfera coletiva para entrar no campo da intimidade, do inconfessável.”

Junto, mas à parte do discurso da individualização, declaro que gosto de dividir esses cinco. O primeiro tinha de ser o manjar branco da minha mãe, mas desclassifiquei. Ela não faz para fora.

Pastiera di grano, porque é séria, madura e italiana. A do Buttina é perfeita. Fina. Escuto o Emilo Pericoli cantar Al Di La, como no filme Candelabro Italiano. Ah, que cafona, o leitor pode pensar. Mas é ótimo.

Creme de mascarpone com chocolate:. mascarpone! O do Gero é ótimo. Mas se derreter o chocolate amargo em casa também funciona. Do seu jeito.

Tiramisu, no Tappo Tratoria, vem no copo, o que além de ter uma pegada caseira ainda me dá a sensação – ilusória, provavelmente – de concentrar mais sabor.

Panacota e frutas vermelhas, porque nem é tão doce assim. 

Torta de maçã, a do Ráscal tem jeitão de vovó Donalda na janela. Massa delicada, que parece vai quebrar com o olhar. Muita fruta.

 

12 pensamentos sobre “A doce intimidade de compartilhar a sobremesa

  1. Vou te contar o que eu acho bacana. Comprar mini-doces diversos e depois do almoço ou jantar, sentar no sofá e repartir assim, uma mordida pra um, uma mordida pra outro. É bom, é íntimo, divertido. Sobre os cupcakes, sinceramente, acho tão coisa comum, os bebezinhos da Panco são mais úmidos que muitos que eu já comi por aí e não tem cara de sobremesa, tem cara de lanchinho sem graça. Sugestão: os mini-doces da Casa Santa Luzia nos jardins.

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  2. Vivi,
    para mim, o melhor doce do mundo é negrinho (brigadeiro, para vocês paulistas) de colher. E na panela. Desde a minha infância que compartilho panelas de negrinho não a dois, mas a vários. Amigos, família, amores múltiplos. A panela de negrinho dá para todo mundo. E se for com uma sessão da tarde, ainda que em DVD, melhor ainda.
    Mas, claro, já dei conta de uma panela sozinha. E confesso, porque comer doce não envergonha, só enobrece. E tenho certeza que melhora o caráter.
    beijos em vocês duas
    Eliane

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  3. Vivi,
    para mim, o melhor doce do mundo é negrinho (brigadeiro, para vocês paulistas) de colher. E na panela. Desde a minha infância que compartilho panelas de negrinho não a dois, mas a vários. Amigos, família, amores múltiplos. A panela de negrinho dá para todo mundo. E se for com uma sessão da tarde, ainda que em DVD, melhor ainda.
    Mas, claro, já dei conta de uma panela sozinha. E confesso, porque comer doce não envergonha, só enobrece. E tenho certeza que melhora o caráter.
    beijos em vocês duas
    Eliane

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  4. sou pelo velho e batido petit gateau. ou por bolos gelados.

    sobre a individualizacao do mundo pelo cupcake… vc ja leu o texto do antonio prata sobre o bolo? da um google. se vc nao achar, te mando.

    saudade.

    beijo

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  5. Paladar bem italianado o seu. Chique.

    A pastiera di grano da Di Cunto, na Mooca, é sensacional. Vale a viagem.

    E vc sabe que a panna cotta, além de deliciosa, tem pouquíssimas calorias? Em tempos de comilança dupla, é uma boa notícia, não?

    bjs

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  6. Adoro compartilhar tudo na mesa, não só as sobremesas. Minha refeção ideal é sempre compartilhada. Talvez, por isso, eu seja tão fascinada pela cultura espanhola das tapas… Ah, também adoro o tiramisù da Tappo.

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