Mané pelado e porco na lata em Pirenópolis

Caipira de cidade grande, quando chega à graciosa cidade do interior, fica assim. Deslumbrado.  Escrevo de Pirenópolis, a uns 120 quilômetros de Goiânia. Um dos lugares mais fotogênicos, com suas ruas de pedra e casinhas brancas de portas e janelas coloridas. Cheguei na sexta-feira, dia 17, a trabalho, para acompanhar três dias de programação no Cine Pireneus, o Festival Slow Film de Cinema e Alimentação.

A conexão com a internet estava uma lástima – o que de certa forma é bom para ajudar a gente a ver as coisas de outra perspectiva. Mas agora o sinal está melhor e eu volto um pouco ao vício urbano. Uma janela.

Junto com o fotógrafo Leo Feltran (e mais umas 100 pessoas por grande sessão), tenho visto filmes de comida feitos em todo o mundo – todos alinhados com a temática do Slow Food, que defende a retomada das origens, o convívio com as pessoas que a gente gosta quando a gente quer e sobretudo ao redor da mesa, o conhecimento – e a consciência – a respeito da origem daquilo que se come, a produção pequena e orgânica, as tradições culinárias e de cultivo.

Entre os filmes, meu preferido até agora é o curta sérvio Somos Aquilo que Perdemos. Sem emitir uma palavra, diz tudo o que a gente precisa saber: somos um pouco daquilo que perdemos, mesmo. Mas também vamos nos transformando com o que – e com quem – encontramos pelo caminho. Como este filme.

Veja:

Quando não estamos no cinema, o programa é visitar alguns produtores locais. Essas histórias, enriquecidas com as fotos de Leo, serão contadas com profundidade no iG Comida.

Ontem fizemos um roteiro rural que começou em um pequeno laticínio e terminou em almoço orgânico em um restaurante lindo e longe de tudo. Teve salada fresca de verduras e beterraba e cenoura raladas, galinha d’angola cozida por hooooras em um caldo reduzido e enriquecido com os próprios miúdos, purê de mandioca e alho-poró. Na sobremesa, frutas assustadoramente frescas banhadas em calda de açúcar mascavo e sementinhas de papoula. Só ingredientes da terra.

Hoje tivemos aula de história a cada dentada no café da manhã espetacular da dona Telma, na Fazenda Babilônia.

Os olhos azuis da dona Telma acolhem como olhos de mãe. Coisa que ela é para todo mundo que se aproxima. Em sua casa, antigo engenho de 200 anos de idade, a mesa está sempre posta. E é farta.

Entre outras tantas especialidades de Goiás, de quintandas e de tempos coloniais, tem mané pelado. Foi meu preferido de hoje. É um bolo de massa de mandioca ralada, ovos, queijo e leite de coco, de consistência elástica, delicada, e que faz a felicidade genuína na companhia de café recém coado e ligeiramente descansado em bule de ágata, no fogão a lenha.

mané pelado: o delicado bolo de mandioca da dona Telma, em Pirenópolis. Foto: Leo Feltran

Mané pelado: o delicado bolo de mandioca da dona Telma, em Pirenópolis. Foto: Leo Feltran

Tem também mais umas 39 coisas boas de comer, todas feitas de jeito antigo, natural e sem pressa. De sal, é de encantar o porco na lata, por exemplo, preparado com a carne do animal criado solto na fazenda e conservada em sua própria banha. É cheio de adjetivos. Saboroso, suculento, rosado, macio, os pedaços desprendendo-se sem esforço.

Gordo, o leitor vai dizer. Sim, é. Mas é comida de verdade que se a gente pode faz bem encontrar, ao menos vez ou outra. 

Nos intervalos das apurações nos passeios e no cinema, a gente come fruta do pé, bebe muita água, reclama um pouco da secura do tempo, se admira da belezura da paisagem e da cidade e da gentileza do povo — mas também já percebe que Pirenópolis começa a dar sinais de ser vítima de sua própria atração. Aos finais de semana, as ruas mais centrais, como a chamada Rua do Lazer, são disputadas. Arrisco dizer que até registram um certo congestionamento. De gente. E de carros.

No fim da tarde, porém, a trilha sonora é tarefa de uma turma de cigarras. Há pouco, o silêncio era ensurdecedor. Mas elas voltaram a cantar e parece que tudo está em seu devido lugar. Só falta um pouco de chuva. E já é hora de ir para a cidade ver mais um filme.

16 pensamentos sobre “Mané pelado e porco na lata em Pirenópolis

  1. Realmente é uma cidade do tipo antigo, porém deslumbrante. Possui um povo hospitaleiro e alegre. Faltou comentar sobre as suas belas cachoeiras, as famosas cavalhadas, diversas comidas típicas da região etc etc.

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  2. Sou Paulista, mas moro em Goiânia há 15 anos e fico encantado com o valor que essa gente dá aos seus locais históricos e turísticos. Concordo com tudo que você disse, mas esqueceu de um pequeno detalhe, as belas pousadas que mais lembram pensões. Parabéns

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    • Visitei Goiânia neste final de ano. Que Cidade Maravilha. Caldas nova, Pirinópoles, Trindade são
      Cidades que devem ser visitadas por todos nós Brasileiros. Culinária? Simplismente uma gostosura. Mané Pelado, Sorvete Cajuzinho da Serra, Sôpa de Milho Verde ,suas famosas Pamonhas. Olha Gente, deixa saudades. Sou Penambucano e predendo voltar em 2012.

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  3. Concordo plenamente principalmente na ultima parte onde a Viviane fala sobre o simples encanto da cidade que com suas rusticas linhas faz com que se torne para minha pessoa, e tambem para muitos, um dos locais mais belos nao so daqui de Goias, mas do mundo. E que desfaz do mito que local para fazer turismo so em litoral e praias, há muitas coisas que os proprios brasileiros e ate mesmo goianos desconhecem da propria terra o que me entristece, pois sou goiano e sei que os valores da terra são hipocritamente valorizados com eventos de pobre tematica utilizando por base a fomigerada musica sertaneja que por algum motivo incompreendido se tornou a unica identidade imposta pelos demais sobre o povo goiano, mas, com fé em Deus acredito que em pouco tempo a identidade do povo goiano seja reconhecida pela sua inteligência e criatividade e nao apenas, por uns 2 ou 3 que dizem representar a cultura goiana atraves de musicas mal cantadas e de letras pobres.
    De quem come “piqui” e puxa o “erre”

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  4. Entrei no ig comida hoje e tive uma agradável surpresa:Você escrevendo aqui. Te acompanhava todos os dias na cbn e fiquei muito triste qd vc parou de falar na rádio, mas agora achei ótimo pq posso ler suas materias a qualquer hora!!
    Sou de Goiânia, e como todo mundo daqui, tb adoro Piri, como é chamada Pirinópolis por aqui.E mané Pelado com café é tudo de bom!!!!
    Parabéns pela matéria !

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  5. Belissimo o seu artigo, suas palavras realmente figuraram em nossas mentes como é maravilhoso fazer turismo em Pirenopolis, um paraiso pertinho de Goiânia e Brasilia e que o lugar preferidos dos intelectus, alias piri respira cultura…parabens pelo seu artigo.

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  6. …este mané pelado deve estar ainda mais saboroso por ter sido preparado em uma forma já amassada, várias vezes ariadas, e por isto sentindo-se cuidadas, valorizadas, retribuem acrescentando “sabor” ao que nelas são preparadas.

    Neste patético mundo do descartável, da agitação descontrolada, nem chegamos a “ser aquilo que perdemos”, pois vivemos descartando tudo que conseguimos.

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  7. Visitei Goiania e entorno algum tempo atrás.
    Amei!!!
    O tempo foi pouco , mas deu para conhecer Goiás Velho, Caldas NOvas e Rio Quente.
    Tudo lindo, as belezas do cerrado sao fantasticas.
    Logo que tiver uma oportunidade também quero ir a Pirenópolis.
    Um beijo aos goianos…

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  8. nunca imaginei que fosse capaz de dizer algo assim: “não vejo a hora de encontrar um mané pelado”. mas é a verdade

    vi, parabéns pelo post

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  9. Nossa, que delícia ler sobre tudo isso com tanta poesia. Já tinha visto, pelo brilho dos olhinhos andando pela Babilônia saboreando cada descoberta, que vc tinha a sensibilidade necessária para traduzir aquele encontro, mas me surpreendeu, parabéns!!!

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  10. Ler sua materia para mim foi como voltar na minha distante infancia!!! q. tristeza; sao tempos q. nao podem voltar, mas na tua narraçao senti ate o cheiro da terra seca, e vi os olhinhos azuis desta graciosa senhora… sao 12 anos q. moro aqui na Italia, e realmente doi saber a distancia de tudo isto, e meus filhos( 7 anos) nao sabem como chupar laranja sem guardanapo…BELLISSIMA materia. Beijos continue assim…

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