Três razões para ler (ou não) o segundo livro de Julie Powell

Destrinchando, de Julie Powell

Casamento, carne e obsessão (!). Editora Record, 52 reais. Tradução de Alice França

Enquanto viro as últimas páginas de Destrinchando: uma História de Casamento, Carne e Obsessão, da mesma autora do supervendido Julie & Julia, penso o óbvio: o segundo livro da americana Julie Powell é uma road trip por açougues em vários lugares do mundo. Isso é legal. O leitor a acompanha pela viagem que faz sozinha nos arredores de Nova York, Buenos Aires, Kiev (na Ucrânia), Tanzânia (na África) etc. Também é uma road trip sobre a vida sentimental de Julie.

Depois de mudar de vida ao executar as receitas da Ofélia americana Julia Child, ela está em crise. Ainda casada com Eric, se apaixona por um homem chamado Damian que, segundo ela, “é somente quem ele consegue ser”. As coisas ficam enroladas e Julie resolve ser açougueira. Na estratégia de divulgação do livro, foi replicada uma comparação feita pela autora: “os açougueiros provocam em algumas mulheres o mesmo fetiche dos bombeiros.”  Hein? Confesso que caí. E fui ler e procurar que provocação seria essa…

Claro que não foi o único motivo, livros sobre comida me interessam porque trabalho com isso e porque gosto. De todo modo, Destrinchando talvez desse um bom roteiro. É uma tragédia romântica. Com isso, não conto o fim da história. Quem ler verá.

Até consigo imaginar a doce atriz Amy Adams (de Julie & Julia) outra vez no papel principal, embora eu tenha lido que ela se afeiçoa mais aos papéis de puritana do que de garota travessa. Julie não é exatamente puritana. No fundo, quer ser “francesa” e liberal, mas aparentemente é só mais uma mulher como muitas, cheia de conflitos, autocentrada e do tipo que expõe publicamente suas intimidades, sem muito pudor. Não é francesa. Já no epílogo, talvez esteja sentindo uma certa antipatia por ela. Mas, na realidade, isso não importa.

Três razões para ler (e talvez sejam, para muita gente, razões para NÃO ler) Destrinchando

1. por causa da narrativa sobre os bastidores dos açougues e do trabalho dos açougueiros. Tirando os excessos, as descrições do movimento das facas, do que se passa na cabeça na hora do corte, do desafio de descolar um pedaço de carne do osso com um cronômetro na cabeça, fazem pensar na atividade artesanal e quase extinta como um ofício de arte. É preciso concentração e sensibilidade e não só habilidade quase sobrenatural com as facas. Não é para vegetarianos.

2. pelas receitas. Chouriço, costelas, rosbife, bochecha, salsichão e outras paradas. Ao fim de um ou outro capítulo, para refletir (ou esquecer) o que foi lido, Julie sugere o preparo de um prato bem carnívoro. Como naquele efeito provocado por muitos filmes — sempre saio do cinema com fome — fiquei previsivelmente faminta. Só dispensaria o frango.

3. por pura curiosidade: saber como essa americana excessivamente preocupada com o que pensam dela (e carente da aprovação alheia) vai se sair ao jogar-se sozinha no mundo dos açougueiros.

A música que escolhi (Mixed Emotions, na voz de Dinah Washington) é autoexplicativa: Mixed Emotions

***

Nota1: copiei um trecho da página 13, não compromete a leitura e ajuda a entender o jeito de Julie misturar seus dramas pessoais com as experiências na cozinha. Aqui, depois de refletir sobre seu futuro-ex-atual-marido (ainda não sei), ela fala sobre fatiar o fígado do boi:

“(…)Desde o começo éramos como peças de um quebra-cabeça que se integram. Desde o começo alimentamos a ideia de que as nossas vidas deveriam ser irrevogavelmente entrelaçadas em uma só.

Agora eu corto oito belas fatias de fígado vermelho-escuro. A carne exala um cheiro forte metálico no ar, e ainda mais sangue sobre a tábua. Mudando de faca, retiro delicadamente os dutos pálidos apertados que se criam nas fatias. O fígado perfeitamente preparado deve ficar crocante na superfície e macio por dentro. Nada duro ou difícil de mastigar deve destruir aquela quintessência sensual. Seis destas fatias vão para a prateleira de vidro e aço brihante na frente da loja; as duas últimas eu separei, para embrulhar e levar para casa depois do trabalho, para o jantar do Dia dos Namorados. Antigamente, eu pensava que essa data consistia em caixas de bombom e cartões purpurinados, mas nesses últimos anos de revelação, entre o trabalho de açougueiro e angústias, decidi que a vida se tornou complicada demais para essas coisas doces e sem sentido (…).

Nota2: lembrei do açougue do Seu Nogueira, lá no bairro Assunção, em São Bernardo. Para a alegria geral, minha mãe comprava toda semana uma lingüiça artesanal feita de carne de boi. Era tenra e salgadinha na medida. Eu não tinha a menor paciência para esperar esfriar e concluir o preparo – ela seria frita, entraria em algum molho ou somaria um pouco mais de felicidade ao caldo do feijão. Antes do desfecho, bastava ferver e eu, que orbitava ao redor do fogão, já surrupiava uma delas, jogava na tábua e logo estava estourando a pele do gomo e devorando um pedaço ainda úmido. Mudamos de casa e no novo bairro não tinha um açougue igual. Página virada.

4 pensamentos sobre “Três razões para ler (ou não) o segundo livro de Julie Powell

  1. Lendo o texto, tambem me veio a memória uma fase da minha infância quando passava de bicicleta em frente ao Matadouro Municipal da cidadezinha do interior… era quase um filme de terror ver o boi sendo desossado, mas ao mesmo tempo via tudo aquilo com uma curiosidade sem tamanho. Hoje em dia, quase subo nos balcões dos açougues para ver e pegar dicas com os simpáticos açougueiros que tão habilmente empunham suas facas… Um belo trabalho o deles!!

    Abraço!
    Caio

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  2. Depois de ler o texto da Viviane às 19hs me deu uma baita fome, mas ao ler o comentario do Caio, me ocorreu de descrever, tambem sobre a minha infancia no oeste do Paraná e sobre matar porcos. Lá todas as propriedades eram pequenas mas todos criavam o seu porquinho para subsistencia. Os sitios ficavam lado a lado e todos terminavam num pequeno riacho. Todos os sitios do outro lado rio tambem eram do mesmo tamanho. Então quando matavamos um porquinho para comer, mandavamos um pedaço, entre 800 gramas a 1 kilo para cada um dos nossos vizinhos, os do nosso lado, e os outros 3 do lado de lá do rio. Era sempre assim, mais ou menos 5 kilos dado de presente, assim que começavamos a destrinchar o bichinho. O mesmo acontecia quando os nossos vizinhos matavam os seus porquinhos. Assim, quando sempre de manhã se ouvia um grito de porco, e olhas que porco morto no punhal demora bastante pra morrer, ja sabiamos que a mistura do almoço estava a caminho. Era sempre assim sem falha. Carne fresca de porco, morto na hora quase toda quinzena.

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  3. Viviane,
    Eu adoro açougues. Adoro o cheiro da carne, o que me dá uma certa culpa. Desde que soube que o Sudeste é abastecido por boi da Amazônia, o churrasco nunca mais foi o mesmo… Mas como estamos numa toada remembers, eu lembro da minha mãe. Minha mãe tem um nariz de cheirar carne: virado para baixo, pontudo e com as narinas abertas. Ela entra no açougue e sai cheirando. Os açougueiros já se resignaram. Ela parece um perdigueiro. E quando a carne é velha, o nariz dela vira de um jeito que poderia virar atração de circo. A cara de nojo derruba a auto-estima de qualquer açougueiro. Lá em casa, a carne era da melhor qualidade. Graças ao narigão da minha mãe.
    Adorei o post! Lembrar é viver…. acho que agora vou preparar uma rabada.
    abraço
    Cris

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