“Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?

(Você concorda com a afirmação acima, de que o atendimento é capaz de salvar a comida? Fique à vontade para dizer o que acha nos comentários, por favor.) 

 
 
 

Juscelino Pereira. Foto: Trícia Vieira/Fotoarena

Juscelino Pereira na porta da cozinha de seu restaurante: dali para fora, o atendimento é o grande trunfo


nemvemquenaotemTRECHO

A casa está cheia e a cara do sujeito é de nem vem que não tem, como na música do Simonal (ouça um trechinho acima, se quiser). Ele avança pelo salão e vai logo abordando o dono : “Quanto tempo?”, pergunta, firme. “Não importa. Afinal, há quanto tempo estou te esperando?”, responde o outro. Em dois segundos, os dois caem na gargalhada, sendo que a do dono da casa é em 5.1. Alta, despojada e sincera. Assim, como a gargalhada do Simonal. Está tudo bem. Os clientes vão aguardar no bar.

Placar: UM para Juscelino Pereira, dono do restaurante italiano Piselli, em São Paulo, ZERO para mau humor do cliente, nocauteado por uma sonora risada.

A linha que separa os bajuladores dos naturalmente simpáticos e atenciosos pode ser tênue e deixar muita gente confusa ou, de cara, derruba a máscara de quem só quer puxar sardinha (sem trocadilhos). Não é o caso de Juscelino. Ele não é bajulador. Você vai perceber isso vendo-o falar de sua trajetória e de como gosta de (e tem talento para) agradar (a íntegra da entrevista no iG Comida). Se a pessoa quiser um copo especial, ele vai buscar. Se quiser comer carne com camarão, ele não vai deixar. E o cliente vai agradecer por isso.

Enquanto costurava a conversa que gravei com Juscelino, outro dia, lá no Piselli, pensei que quando a pessoa trabalha direto com o público simplesmente não pode dar uma de Clint Eastwood em Grand Torino. E isso de fato é um dom. Não quero espantar meus leitores…, mas a verdade é que eu não tenho esse talento tão raro para me relacionar, a paciência, a presença de espírito. Sou mais Clint do que Juscelino, mas prefiro encontrar Juscelinos nos restaurantes em que eu vou.

Para o simpático Juscelino, no entanto, a conquista do cliente é quase um jogo. Enquanto não ganhar a confiança, não tiver certeza de que fez a coisa certa para a pessoa ir embora com a barriga cheia e o coração feliz, ele não sossega. Bom para quem for atendido por ele.

Saquei da entrevista sete frases para pensar.

“Eu gosto de atender, servir. Gosto de gente, gosto de me relacionar.”

“A gente forma clientela tratando todo mundo com carinho, tentando guardar o nome da pessoa e o que ela gosta de comer e beber. Dando atenção.”

“O que os clientes gostam é de sinceridade. Mostrar que eu quero que fiquem bem sem gastar além do necessário, sem empurrar coisas.”

“Tem gente que, mesmo com treinamento, não consegue. Não é culpa da pessoa. É falta de talento para essa atividade.”

“Eu não tenho aqui uma estrutura muito profissional de serviço, como outros restaurantes têm, com formação técnica, excelência mesmo. Falo de pessoas perfeitas na postura, na classe, no jeito de tirar e por o talher, trocar o prato etc. É um balé perfeito e bonito de se movimentar. Mas o meu lado é mais emocional.”

“O serviço não pode ser relaxado, o cara não pode esquecer de trazer as coisas, não pode demorar. Tem de ter eficiência, mas a chave está em ser personalizado.”

“Já ouvi cliente dizer que valoriza mais o serviço do que a comida. Se o serviço for personalizado, gentil, bom mesmo, ele é capaz de consertar a comida.”

***

Nota1: no livro A Fisiologia do Gosto, um dos mais citados quando se fala de história da comida, o pioneiro da crítica gastronômica Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) anota em seus aforismos o seguinte: “convidar alguém significa ocupar-se de sua felicidade durante todo o tempo.” E não é?

Nota2: uma coisa que me conforta em alguns sábados à tarde – só alguns, afinal eles não são todos iguais – é saber que sempre haverá um restaurante que funciona sem intervalos, para a gente “almojantar”. O Piselli é assim, um dos meus preferidos. Mas é um lugar caro, não dá para recorrer a ele com freqüência. Assim, com uma outra proposta, mais acessível, tem o Lellis Tratoria da Alameda Campinas. Também em São Paulo. Se você for do signo da carne, sugiro pedir o Oswaldo Aranha – são quatro filés altos e bem suculentos, mais a misencene da casa para incorporar ao suco dos medalhões o arroz, a farofa bem temperada e as batatas crocantes. Peça também um ovo frito para acompanhar, se for do seu agrado.

10 pensamentos sobre ““Serviço bom pode consertar a comida”. Pode mesmo?

  1. Concordo plenamente. Restaurante é comida e é serviço também. Tudo junto e misturado. Pior é quando a gente vai em restaurante “bacana” que acha que, por estar consolidado na cena gastronômica, não precisa ser gentil com os clientes. Esses são os piores.

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  2. Restaurante tem que ser sinônimo de qualidade, reunindo alimentação, serviço de atendimento e custo.
    Sem qualquer um deles, a conclusão é óbvia : não valeu a pena !
    Um item não substitui o outro, qualquer que seja.

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  3. Acredito que ambos devem estar em plena harmonia. De nada adianta a comida ser deliciosa se o atendimento é péssimo, ou vice-versa. É necessário que haja um equilíbrio, uma vez que em um restaurante o primordial são esses 2 quesitos, que quando em harmonia, despertam o real sentido da hospitalidade, logo, a total satisfação do cliente.

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  4. Amei a entrevista. Uma pena que nem todo restaurante tenha um maître como ele. E se tivessem, as pessoas acabariam lembrando mais dele que do próprio nome do lugar ou sua comida. E voltariam tantas vezes quantas precisassem de um abraço sincero. Ou de boa comida.

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  5. Pela minha experiência, em qualquer situação onde o principal não esteve de acordo com o esperado, é muito complicado consertar o evento em si com o supérfluo ou acessório.
    Resta saber se, neste caso, há clientes que não esperam uma comida superior ou acima das possibilidades do momento e esperam sim, como principal, um atendimento de alto nível.
    Neste caso não haveria um conserto, mas sim um atendimento às expectativas destes clientes.
    Fabio Passerini – Diretor da Ótima Solução em Marketing

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  6. Concordo…com excecao de quando realmente o programa é comer bem, a maioria das vezes queremos uma atmosfera legal, bom servico e simpatia! Comida ruim e logico que nao da, mas quem come fora todo dia quer as coisas acima!!
    Mais emocao!!

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  7. Apesar de valorizar o serviço e o atendimento, comida boa é imbatível. Almoço aqui em Alphaville em um Argentino que o serviço é péssimo sempre, porém a comida é ótima, não consigo deixar de ir!

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  8. SE O RESTAURANTE TEM A COMIDA MÉDIA E O SERVIÇO BOM, A EXPERIÊNCIA É MENOS DOLOROSA, MAS O CLIENTE NÃO VOLTA;
    MAS SE TEM A COMIDA EXCELENTE E O SERVIÇO UMA DROGA, O CLIENTE VOLTARÁ COM CERTEZA.
    OU SEJA, DE NADA ADIANTA UM BELO SERVIÇO SE A COMIDA NÃO É BOA…

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