A vida à mesa e seus acompanhamentos

Cheguei outro dia na porta de um restaurante e, ainda na calçada, o manobrista se recusou a pegar a chave do carro. Me fez um sinal para esperar e gritou para o colega na porta da casa, a alguns metros dali. “Tem espera, fulano?”. O fulano fez mímica. O manobrista me olhou: “Uma hora e meia. Não adianta eu levar seu carro, né?” “Leva sim”, falei. “Se tiver um bar, vou esperar”. Era minha primeira vez no italiano Tre Bicchieri (Itaim, Zona Oeste de São Paulo), um dos lugares mais disputados na cidade atualmente, e eu não estava com pressa. A gritaria na porta do restaurante era dispensável.

Entendo: em um esforço para evitar cara feia por não ter sido avisada da espera, o rapaz quis se adiantar. Mas ele berrou. Eu ficaria até embaraçada se a mesma cena não tivesse acontecido várias vezes em outros dias, em outros lugares. Costumo dizer que manobrista às vezes dá uma de firewall. Cria um filtro.

Lidar com gente – o manobrista comigo, e eu com ele, por exemplo – não é fácil. Eu sei disso na pele, porque antes de ser jornalista fui sócia da minha irmã em uma locadora de filmes. Era muito legal, porque eu assistia tudo “de graça”. Teoricamente, ali todo mundo entrava feliz para alugar um pouco de diversão. Mas a gente enfrentava cada coisa… Com meu temperamento não deu lá muito certo. Resolvi escrever.

Enfim, atire o primeiro garfo quem não tem uma história de restaurante. Minha família é famosa pela linhagem de encrencas – não as procuramos, mas somos procurados, que se há de fazer? Nada muito grave, mas temos um radar para filas de espera com movimentações duvidosas, carne fora do ponto, mesas esquecidas no salão, cafés frios e contas que nunca chegam.

Recentemente, no português Bacalhoeiro, no Tatuapé (na zona leste de São Paulo), quase usei meu celular para ligar para a recepção e avisar que a gente queria mais uma água, o café e a conta, tamanho o tempo que passamos ali, às vezes com a mão levantada, sem que ninguém socorresse. A comida é ótima e a casa tem uma brigada esforçada, mas naquele domingo eles estavam atrapalhados entre as belas praças do salão. Como nossa mesa era reservada, ficava em um cantinho mais tranquilo, pagamos o preço. Outra noite, no contemporâneo Dui, que fica nos Jardins, sempre tinha um garçom por perto. Foi quase como jantar a três. Trocávamos cinco palavrinhas e… au revoir privacidade. Lá estava um deles com um sorriso amarelo, a se desculpar e indagar o próximo passo. Isso causa uma certa ansiedade e dá a impressão que querem se livrar de você. Um engano.

Sem Reservas

Catherine-Zetta Jones, a chef Kate: um bife cru para se vingar de um cliente mal criado

Tragicomédia

Quando era pequena, lá em São Bernardo do Campo, a gente comia fora de casa uma vez por semana (e olhe lá). Era no almoço de domingo, na casa da avó. Só nesse dia era permitido tomar refrigerante. Eu lambia os dedos ao saborear uma deliciosa coxa de frango assado. Com pele, lógico. Ir ao restaurante era caro e raro – e não por eu ser uma pequena selvagem que comia com as mãos e tinha de ser afastada da sociedade, mas por ser um passeio reservado a ocasiões especiais. Na tradicional rota do frango com polenta, aquela dos salões gigantes, só íamos por motivo de festa: formatura da escola, batizado, casamento. Naquele tempo, era comum a gente se botar bem bonito para jantar ou almoçar fora. Com a melhor roupa.

Nos últimos anos, por prazer e também atrás de material de trabalho, passei a sair para comer praticamente todos os dias na hora do almoço e bem umas três ou quatro noites por semana. Minha mesa preferida ainda é a da casa da mãe, que faz o melhor tudo que eu quiser. Depois, vem o restaurante. Cozinhar é a última opção por pura falta de talento, exceto para algumas coisas que a modéstia não permite exibir.

Nessa rotina, simpatizamos com o garçom mais esforçado, e ficamos inconformados com o arrogante, o afetado ou o preguiçoso. A gente cria um repertório de observação que chega a ser engraçado, e começa a antecipar problemas: o espumante em taça atravessa o salão, já servido, e chega à mesa meio triste, sem bolinhas. Não é culpa da distância. A suspeita é a garrafa, que deve ser da véspera. Tem de trocar, abrir outra. Nem todo lugar é amistoso com o pedido, que é legítimo. Não é frescura. Espumante sem borbulha é espumante morto.

É a tragicomédia da vida à mesa. Meus amigos e parentes já (quase) se acostumaram. Em troca, defendo-os sempre que posso. E tento não embaraçá-los nem criar situações que provoquem a ira da brigada: a atriz Catherine-Zetta Jones, no filme Sem Reservas (EUA, 2007), finca o garfo com um bife cru na mesa de um cliente mal criado. Bem, eu não cheguei a esse ponto. Nem dela nem dele.

Se perguntar o que me mais irrita, para falar de uma coisa só, é a falta de atenção. Não que eu seja muito carente, mas se estiver falando com o garçom e ele ficar com aquele ar de finge-que-escuta enquanto os olhos e o pescoço agitam para outras bandas, meu nível de paciência começa a cair. Fatalmente o sujeito não entenderá o que eu disse e terá de perguntar de novo ou anotará errado e trará gelo e limão para acompanhar minha água com gás. Aquela que sempre, sempre, sempre bebo pura – o gelo derrete, vira água lisa e estraga o prazer das bolinhas.

O desassossego aumenta se a falta de atenção for com meu pai e/ou minha mãe. Vira coisa de família e me tomo por eles. Quem viu a série de tevê Ally McBeal vai lembrar das alucinações em que a advogada interpretada por Calista Flockhart ficava furiosa e imaginava engolir a cabeça de quem a tirava do sério. É mais ou menos assim que fico (em pensamento, lógico).

Este blog, no entanto, que piloto enquanto editora do iG Comida, vai dar umas dentadas nessa convivência de cliente e restaurante. O serviço, aqui, receberá atenção especial. E o comportamento de quem frequenta os lugares também. Não vai ser o único assunto, porque teremos coisas de comer e beber, música, cinema e livros relacionados à gastronomia. E, como vou atender você, fique por favor à vontade para fazer seus pedidos, críticas e sugestões. Eu não mordo.

P.S. quem acompanhava meus boletins em rede nacional sobre viagem e comida na rádio CBN, apresentados junto com o Carlos Alberto Sardenberg, lembra que a gente sempre abria os trabalhos com uma música. Vou tentar retomar a rotina. Hoje, é uma canção italiana engraçadinha chamada Via Con Me, interpretada por Paolo Conte e que faz parte da trilha sonora do filme Sem Reservas, cujo nome inspirou livremente o marido de uma grande amiga a batizar o blog. (A canção também está na trilha da novela Passione, mas, nesse caso, é pura coincidência)

ViaConMeTRECHO

14 pensamentos sobre “A vida à mesa e seus acompanhamentos

  1. Vivi, minha querida! Parabéns pelo novo blog e pelo bom e velho estilo de contar uma história cheia de sabores.
    Coincidências do destino encontrei neste último domingo, em SBC, uma cantina, a Fratelli, que me encantou. Massa saborosa, perfeitamente cozida e temperada. Serviço ótimo também. Nós que vivemos naquelas bandas sabemos como isso é raro… Enfim, uma ótima opção ao frango com polenta. Ah, sim, e ainda tem lemoncello…
    Que tal um retorno à terra natal hora dessas para colocar a conversa em dia?
    Beijo grande,
    Analu

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  2. Vivi, parabéns pela coluna! Essa primeira deu água na boca e mostrou o que vem por aí: textos saborosos e dicas preciosas. Grande beijo. Giu

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  3. * Descobri há pouco: também sou detalhista em restaurantes. Da toalha da mesa ao odor do banheiro. Do sorriso do garçom à funcionalidade dos espaços. Da proximidade entre as mesas.

    * Frango com polenta no Demarchi. Ainda povoa minhas memórias infantis. Aquele tio de bigode que falava com voz de gato e me assustava. Aqueles 3 mil lugares. “O restaurante preferido do Lula”. Quando o Lula ainda era apenas o Lula. Melhor frango com polenta ever.

    * Uma hora e meia por uma mesa? Thanks but no thanks. Life is too short. Dez minutos é o máximo que eu posso aguentar.

    * Lembrei daquele dia no Veloso quando eles já tinham colocado todas as cadeiras em cima da mesa e o rapaz chegou até a gente, bateu duas vezes com o indicador no relógio e disse: “o bar fecha à meia-noite”, ou qualquer coisa assim.

    * No ano passado fui num restaurante aqui na Avenida Portugal durante a Restaurant Week. Numa mesa que dava para ver a cozinha. E que na cozinha tinha um varal com toalhas e panos pendurados. Très elegant.

    * Sou seu fã. Boa sorte nessa nova empreitada!

    Saudade.

    Beijo

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  4. Oi Vivi !! Parabéns pelo novo espaço aqui! Passo agora a te acompanhar, como ja fazia na CBN, e a curtir suas boas histórias e dicas sobre esse assunto que tanto adoro! Boas garfadas pra vc!
    Sobre o nome do blog…. adorei!!! Rrsrs…

    Bjs
    Caio

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  5. Viviane,
    ler o seu primeiro post foi como experimentar trufas pela primeira vez num restaurante simples e solar da Toscana. Delicioso e honesto. Conectado. De verdade.
    Como sou comilona, vou estar sempre aqui, a espera de novas epifanias gastronômicas. Gosto do seu estilo de misturar suas lembranças com as desventuras nos restaurantes. Estava faltando um espaço de crítica, mesmo. São Paulo é uma cidade maravilhosa para quem gosta de comer bem, mas parte dos restaurantes são uma decepção. Metidos, caros e medíocres. Como seus chefs. Tem alguns onde até o garçom se acha a última cereja do bolo. Quase choro quando caio numa destas armadilhas. E quero correr ao Procon!
    Sugiro que você descubra para a gente bons restaurantes baratos. Honestos. Ninguém faz isso. E eu não acho que a gente precise deixar um pedaço do salário para comer bem. Gostaria muito de encontrar aqui dicas de lugares de verdade, com gente de verdade cozinhando (e não chefs metidos), com garçons conectados com o cliente (e não atores e modelos ganhando a vida com seus rostinhos inexpressivos) e preço honesto.
    E, olha, eu acho que você morde. E torço para que morda meeesmo!
    Parabéns e boa sorte nesta mesa! Vou torcer para que saia da mesmice dos blogs de comida que a gente vê por aí.
    Cristina

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  6. Não podia concordar mais com a parte da água com gás. Todo santo dia, peço uma no almoço — sempre sem gelo e limão, pra não ficar choca. Em pelo menos 30% das vezes o garçom traz com gelo e limão, porque não tava prestando atenção.

    Gosto dos garçons velhinhos.

    Parabéns pelo blog, beijos,

    Pedro

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  7. Viviane,

    seu blog deveria ganhar todas as estrelas Michelin na categoria “texto mais saboroso”…

    Receba meus parabéns (e um monte de “bolinhas” – sem gelo e sem limão…)

    Já salvei o link nos meus favoritos.

    Abraços

    João

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  8. Viviane, adorei a coluna e principalmente as citações do filme da Catherine e da Ally McBeal. Me identifiquei muito, é impossível não analisar todos esses detalhes. Infelizmente, nem sempre as pessoas tem treinamento e interesse em atender bem os clientes. Conto com suas dicas! bjs

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